Com um certo exagero e um bom toque de amadorismo, este vídeo busca reunir algumas características dos clássicos noir.
Apreciem com moderação.
http://www.videojug.com/film/film-noir-explained
Experimento Noir é um espaço de troca de experiências e experimentos que bebam da fonte do gênero noir.
Participe para saber mais e envie a sua colaboração. Após análise, publico com crédito do experimentador.
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terça-feira, 9 de agosto de 2011
sábado, 9 de julho de 2011
As três fases do Noir - Paul Shrader
O cineasta e crítico de cinema Paul Schrader, divide a evolução da estética Noir em três fases (Cinema Noir - Korodi), enfatizando a presença do anti-herói, protagonista da trama Noir:
1a. (1941/1946) detetive particular, mulher fatal, diálogos cortantes e inteligentes - inspiração na literatura policial de Raymond Chandler, Dashiel Hammett e James M. Cain.
Filmes: O Falcão Maltês (The Maltese Falcon, 1941, de John Huston), O Destino bate à sua porta (The postman always rings twice, 1946, de Tay Garnett), Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944, de Billy Wilder).
2a. (1945/1949) - período pós-guerra - ênfase ao crime das ruas, à corrupção e às rotinas policiais - Hérois menos românticos e o realismo relacionado ao sentimento de desilusão do pós-guerra.
Filmes: Brutalidade (Brute force, 1947, de Jules Dasin), Assassinos (The killers, 1946, de Robert Siodmak) e Amarga Esperança (They live by night, 1949, de Nicholas Ray). 12
3a. (1949/1953) - paranoia, o impulso suicida e a ação psicológica - O desespero e a desintegração do herói chegam ao ápice e o assassino psicopata torna-se o protagonista.
Filmes: Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard,1950, de Billy Wilder), Os Corruptos (The Big Heat, 1953, de Fritz Lang) e Mortalmente Perigosa (Gun Crazy, 1950, de Joseph H. Lewis).
1a. (1941/1946) detetive particular, mulher fatal, diálogos cortantes e inteligentes - inspiração na literatura policial de Raymond Chandler, Dashiel Hammett e James M. Cain.
Filmes: O Falcão Maltês (The Maltese Falcon, 1941, de John Huston), O Destino bate à sua porta (The postman always rings twice, 1946, de Tay Garnett), Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944, de Billy Wilder).
2a. (1945/1949) - período pós-guerra - ênfase ao crime das ruas, à corrupção e às rotinas policiais - Hérois menos românticos e o realismo relacionado ao sentimento de desilusão do pós-guerra.
Filmes: Brutalidade (Brute force, 1947, de Jules Dasin), Assassinos (The killers, 1946, de Robert Siodmak) e Amarga Esperança (They live by night, 1949, de Nicholas Ray). 12
3a. (1949/1953) - paranoia, o impulso suicida e a ação psicológica - O desespero e a desintegração do herói chegam ao ápice e o assassino psicopata torna-se o protagonista.
Filmes: Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard,1950, de Billy Wilder), Os Corruptos (The Big Heat, 1953, de Fritz Lang) e Mortalmente Perigosa (Gun Crazy, 1950, de Joseph H. Lewis).
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Neo Noir
O termo filme noir é uma designação para os filmes norte americanos com certas particularidades técnicas e temáticas que fizeram os franceses aplicarem tal designação para o gênero.
Além dos próprios profissionais da época não aplicarem um nome ou tentar classificar o tipo de filmagem que estavam produzindo, tendo como maior ocupação transitar por técnicas e estilos o mais livres que pudessem, buscando o entretenimento do público com o diferencial em relação ao chamado cinema classe A dos musicais glamourosos de uma temática mais realista e mais próxima da realidade do Crash da Bolsa e as incertezas advindas da Segunda Guerra, vemos que esse período de manifestações com um aglomerado de características específicas acabou por cunhar um nome que designasse essa forma de filmar.
Fatos históricos a parte e ainda todo o questionamento sobre se existe ou não um gênero noir - na pós houve inclusive uma menção de que a temática e forma de filmar surge em várias épocas e estilos todo o tempo, sugerindo não ser algo que se possa atribuir exclusivo ou especificamente ao gênero - desde seu "surgimento" e apropriações ou revivals nos anos seguintes, fez com que certos críticos e estudiosos atribuíssem variáveis para o gênero, tentando situar com a nova ou corrente apropriação de determinada época. Uma delas é o chamado Neo Noir.
Neo Noir (do grego neo, novo, e o noir francês, preto) é um estilo muitas vezes visto em filmes modernos e outras formas que utilizam elementos do filme noir, mas com temas atualizados, conteúdo, estilo, elementos visuais ou mídia ausentes em filmes dos anos 1940 e 1950.
É indiscutível que o noir provocou um impacto significativo sobre outros gêneros que incorporam os elementos temáticos e visuais do filme noir, passando a ser classificados de forma independente, como no caso do Neo Noir, este a partir dos anos 70.
Ao contrário dos noirs clássicos, os neo-noir estão cientes das circunstâncias modernas e tecnologia de detalhes que eram tipicamente ausentes ou sem importância para a trama do filme noir clássico.
Nos filmes do início dos anos 1940 e 50, o público é levado a entender e construir um relacionamento com o protagonista ou anti-herói. Os Neo-noir do pós-1970 geralmente revertem esse papel. Movimentos de câmera pouco convencionais e seu enredo lembram que eles são apenas espectadores e não participam da história.
Temas modernos empregados no neo-noir incluem crises de identidade, problemas de memória e subjetividade, problemas tecnológicos e suas ramificações sociais. Esses elementos são fundamentais e ambíguos na prática, e os teóricos do cinema argumentam que o termo "neo-noir" pode ser aplicado a outras obras de ficção. Robert Arnett afirma que "Neo-noir tornou-se tão amorfo como um gênero / movimento, qualquer filme com um detetive ou um crime qualificado." É por causa da ambivalência desse gênero que neo-noir ainda está em forma e interpretado de modo maleavel na atualidade.
Outros observaram que filmes como After Dark, My Sweet (1990) and Hard Eight (1996) são neo-noirs que combinam perfeitamente o gênero noir com elementos do gênero faroeste, em termos de configuração e temas.
fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Neo-noir
Além dos próprios profissionais da época não aplicarem um nome ou tentar classificar o tipo de filmagem que estavam produzindo, tendo como maior ocupação transitar por técnicas e estilos o mais livres que pudessem, buscando o entretenimento do público com o diferencial em relação ao chamado cinema classe A dos musicais glamourosos de uma temática mais realista e mais próxima da realidade do Crash da Bolsa e as incertezas advindas da Segunda Guerra, vemos que esse período de manifestações com um aglomerado de características específicas acabou por cunhar um nome que designasse essa forma de filmar.
Fatos históricos a parte e ainda todo o questionamento sobre se existe ou não um gênero noir - na pós houve inclusive uma menção de que a temática e forma de filmar surge em várias épocas e estilos todo o tempo, sugerindo não ser algo que se possa atribuir exclusivo ou especificamente ao gênero - desde seu "surgimento" e apropriações ou revivals nos anos seguintes, fez com que certos críticos e estudiosos atribuíssem variáveis para o gênero, tentando situar com a nova ou corrente apropriação de determinada época. Uma delas é o chamado Neo Noir.
Neo Noir (do grego neo, novo, e o noir francês, preto) é um estilo muitas vezes visto em filmes modernos e outras formas que utilizam elementos do filme noir, mas com temas atualizados, conteúdo, estilo, elementos visuais ou mídia ausentes em filmes dos anos 1940 e 1950.
É indiscutível que o noir provocou um impacto significativo sobre outros gêneros que incorporam os elementos temáticos e visuais do filme noir, passando a ser classificados de forma independente, como no caso do Neo Noir, este a partir dos anos 70.
Ao contrário dos noirs clássicos, os neo-noir estão cientes das circunstâncias modernas e tecnologia de detalhes que eram tipicamente ausentes ou sem importância para a trama do filme noir clássico.
Nos filmes do início dos anos 1940 e 50, o público é levado a entender e construir um relacionamento com o protagonista ou anti-herói. Os Neo-noir do pós-1970 geralmente revertem esse papel. Movimentos de câmera pouco convencionais e seu enredo lembram que eles são apenas espectadores e não participam da história.
Temas modernos empregados no neo-noir incluem crises de identidade, problemas de memória e subjetividade, problemas tecnológicos e suas ramificações sociais. Esses elementos são fundamentais e ambíguos na prática, e os teóricos do cinema argumentam que o termo "neo-noir" pode ser aplicado a outras obras de ficção. Robert Arnett afirma que "Neo-noir tornou-se tão amorfo como um gênero / movimento, qualquer filme com um detetive ou um crime qualificado." É por causa da ambivalência desse gênero que neo-noir ainda está em forma e interpretado de modo maleavel na atualidade.
Outros observaram que filmes como After Dark, My Sweet (1990) and Hard Eight (1996) são neo-noirs que combinam perfeitamente o gênero noir com elementos do gênero faroeste, em termos de configuração e temas.
fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Neo-noir
domingo, 8 de maio de 2011
O neorealismo italiano, a visão da realidade.
Outra influência do Noir que enfatiza a temática realista, repudiando o cinema espetáculo, é o neorealimo itaiano, movimento que reagiu ao fascismo e à participação italiana na Segunda Guerra Mundial, retratando a classe trabalhadora urbana de então, assombrada pelo desemprego. Com duração em torno de 10 anos (1943 a 1953), seu período mais significativo ocorreu de 45 a 48.
Marcada pela ditadura de Benito Mussolini nas décadas anteriores, a Itália do pós-guerra era um país devastado, com uma economia em grandes dificuldades e que sentia a difícil transição da agricultura para a indústria. Esta realidade não se via no cinema italiano, com temas fantasiosos e irreais, além de produções vindas de Hollywood. Neste contexto, os neo-realistas reclamavam que o cinema devia “enxergar” e analisar a realidade, mostrando a vida italiana sem embelezamento. A filosofia do neo-realismo, cujas fundações foram estabelecidas pelo poeta e argumentista Cesare Zavattini, tinha uma preocupação humanista, onde se enfatizava a vida real e o espírito coletivo.
A renovação ocorre na temática, na linguagem e na relação com o público. Com poucos recursos, linguagem mais simples, temáticas contestadoras, atores não-profissionais e tomadas ao ar livre os filmes retratam o dia-a-dia de proletários, camponeses e pequena burguesia, imersos em um ambiente injusto e fatalista, sempre encontrando a frustração na eterna busca por melhores condições de vida, características ue se originam do realismo poético francês.
O cinema neorrealista italiano caracterizou-se pelo uso de elementos da realidade, aproximando-se do filme documentário. Ao contrário do cinema tradicional de ficção, o neo-realismo buscou representar a realidade social e econômica de uma época.
"Obsessão" (Ossessione - 1943), de Luchino Visconti, é considerada a obra inaugural do neo-realismo. A trilogia de Roberto Rosselini, Roma, "Cidade Aberta" (Roma, città aperta / Rome, Open City - 1945), "Paisà" (Paisà - 1946) e "Alemanha, Ano Zero" (Germania Anno Zero / Germany Year Zero - 1947), ao lado de "Ladrões de Bicicleta" (Ladri di Biciclette / The Bicycle Thief - 1948) e "Umberto D" (Umberto D - 1952), de Vittorio De Sica, constituem os grandes marcos do movimento. Destacam-se também "A Romana" (La Romana / Woman of Rome - 1954), de Luigi Zampa, "O Capote" (Il Cappotto / The Overcoat - 1952), de Alberto Lattuada, "O Ferroviário" (Il Ferroviere / Man of Iron / The Railroad Man - 1956), de Pietro Germi, e "A Terra Treme" (La Terra trema / The Earth Trembles - 1948), de Visconti.
Vittorio De Sica e o roteirista Cesare Zavattini realizam as maiores obras do neo-realismo: "Milagre em Milão" (Miracolo a Milano / Miracle in Milan - 1950) e "O Teto" (Il Tetto / The Roof / Le Toit - 1956). Recebe três Oscars de filme estrangeiro por "Ontem, Hoje e Amanhã" (Ieri, Oggi e Domani / Yesterday, Today and Tomorrow - 1963), "Casamento à Italiana" (Matrimonio all'Italiana / Marriage Italian-Style - 1964) e "O Jardim dos Finzi Contini" (Il Giardino dei Finzi-Contini / The Garden of the Finzi-Continis - 1971).
Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Neorrealismo_italiano
História do Cinema: http://www.webcine.com.br/historia2.htm
Neo-Realismo Cinematografico Italiano, O - EDUSP
Marcada pela ditadura de Benito Mussolini nas décadas anteriores, a Itália do pós-guerra era um país devastado, com uma economia em grandes dificuldades e que sentia a difícil transição da agricultura para a indústria. Esta realidade não se via no cinema italiano, com temas fantasiosos e irreais, além de produções vindas de Hollywood. Neste contexto, os neo-realistas reclamavam que o cinema devia “enxergar” e analisar a realidade, mostrando a vida italiana sem embelezamento. A filosofia do neo-realismo, cujas fundações foram estabelecidas pelo poeta e argumentista Cesare Zavattini, tinha uma preocupação humanista, onde se enfatizava a vida real e o espírito coletivo.
A renovação ocorre na temática, na linguagem e na relação com o público. Com poucos recursos, linguagem mais simples, temáticas contestadoras, atores não-profissionais e tomadas ao ar livre os filmes retratam o dia-a-dia de proletários, camponeses e pequena burguesia, imersos em um ambiente injusto e fatalista, sempre encontrando a frustração na eterna busca por melhores condições de vida, características ue se originam do realismo poético francês.
O cinema neorrealista italiano caracterizou-se pelo uso de elementos da realidade, aproximando-se do filme documentário. Ao contrário do cinema tradicional de ficção, o neo-realismo buscou representar a realidade social e econômica de uma época.
"Obsessão" (Ossessione - 1943), de Luchino Visconti, é considerada a obra inaugural do neo-realismo. A trilogia de Roberto Rosselini, Roma, "Cidade Aberta" (Roma, città aperta / Rome, Open City - 1945), "Paisà" (Paisà - 1946) e "Alemanha, Ano Zero" (Germania Anno Zero / Germany Year Zero - 1947), ao lado de "Ladrões de Bicicleta" (Ladri di Biciclette / The Bicycle Thief - 1948) e "Umberto D" (Umberto D - 1952), de Vittorio De Sica, constituem os grandes marcos do movimento. Destacam-se também "A Romana" (La Romana / Woman of Rome - 1954), de Luigi Zampa, "O Capote" (Il Cappotto / The Overcoat - 1952), de Alberto Lattuada, "O Ferroviário" (Il Ferroviere / Man of Iron / The Railroad Man - 1956), de Pietro Germi, e "A Terra Treme" (La Terra trema / The Earth Trembles - 1948), de Visconti.
Vittorio De Sica e o roteirista Cesare Zavattini realizam as maiores obras do neo-realismo: "Milagre em Milão" (Miracolo a Milano / Miracle in Milan - 1950) e "O Teto" (Il Tetto / The Roof / Le Toit - 1956). Recebe três Oscars de filme estrangeiro por "Ontem, Hoje e Amanhã" (Ieri, Oggi e Domani / Yesterday, Today and Tomorrow - 1963), "Casamento à Italiana" (Matrimonio all'Italiana / Marriage Italian-Style - 1964) e "O Jardim dos Finzi Contini" (Il Giardino dei Finzi-Contini / The Garden of the Finzi-Continis - 1971).
Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Neorrealismo_italiano
História do Cinema: http://www.webcine.com.br/historia2.htm
Neo-Realismo Cinematografico Italiano, O - EDUSP
O realismo poético francês
Mais uma influência sobre o gênero Noir que visa o retrato mais próximo da realidade frente as questões humanas e sociais é o realismo poético francês, um movimento surgido a partir da metade da década de 1930, logo após o advento tecnológico que deu origem ao cinema falado (1927), onde a produção The Jazz Singer - O Cantor de Jazz parece ter sido o marco inicial dessa nova fase do cinema norte-americano, espalhado em seguida para todo o mundo.
O cinema se converteu em um espetáculo visual e sonoro, destinado ao público em geral - inclusive a burguesia que até então desprezava o cinema por considerá-la uma arte destinada somente às massas, passando a enxergá-lo como meio de encontro social - e passou a dar mais importância aos elementos narrativos, o que levou, além do predomínio das produções glamourosas dos musicais, à arte do realismo e a dramaticidade do dia-a-dia.
Diante de tal mudança, os diretores franceses trocaram a vanguarda experimental por uma estética naturalista, iniciada por René Clair com Sous les toits de Paris (1930; Sob os telhados de Paris), a realidade melancólica em Million (1931; O milhão), À nous la liberté (1932; Viva a liberdade) e outras comédias. Jean Renoir desvendou com violência, ironia e compaixão as fraquezas humanas em Les Bas-fonds (1936; Bas-fonds), La Grande Illusion (1937; A grande ilusão) e La Règle du jeu (1939; A regra do jogo), estes últimos indicados crítica como dois dos maiores filmes do mundo.
Mas para a crítica, a obra O Atalante de Jean Vigo (1934), filme que descreve de forma poética as desventuras de um casal em viagem de lua-de-mel em uma pequena barca, com ambientes populares dos subúrbios das cidades francesas situadas às margens do rio navegado, é considerada o marco zero do realismo poético francês, representando a quebra da estética em relação ao cinema de vanguarda que imperava na França até então.
O naturalismo e o realismo que dominaram a tela francesa na década de 1930 apresentava personagens das classes populares em ambientes sórdidos, tratados com poesia e pessimismo. Os diretores que participaram com realce dessa fase foram Marcel Carné, Jacques Feyder, Julien Duvivier, Pierre Chenal e Marc Allegret. No âmbito populista, o maior nome foi Marcel Pagnol.
Os temas de fatalismo e injustiça que caracterizaram o realismo poético francês influenciaram o estilo filme Noir, gênero com suas histórias policiais que retratam personagens cínicos imersos em um ambiente de corrupção e devassidão. Filmes como Farrapo Humano (The Lost Weekend - 1945) e No silêncio da noite (In a Lonely Place - 1950), de maneira similar aos da primeira fase do realismo poético francês, apresentavam como protagonistas pessoas oprimidas presas a uma vida ordinária.
Com o fim da segunda guerra mundial, o cinema internacional entrou numa fase de transição que repudiava as formas tradicionais de produção e um inédito compromisso ético dos artistas. Assumindo atitude mais crítica em relação aos problemas humanos, o cinema rompeu com a tirania dos estúdios e passou a procurar nas ruas o encontro de pessoas e realidades.
O cinema se converteu em um espetáculo visual e sonoro, destinado ao público em geral - inclusive a burguesia que até então desprezava o cinema por considerá-la uma arte destinada somente às massas, passando a enxergá-lo como meio de encontro social - e passou a dar mais importância aos elementos narrativos, o que levou, além do predomínio das produções glamourosas dos musicais, à arte do realismo e a dramaticidade do dia-a-dia.
Diante de tal mudança, os diretores franceses trocaram a vanguarda experimental por uma estética naturalista, iniciada por René Clair com Sous les toits de Paris (1930; Sob os telhados de Paris), a realidade melancólica em Million (1931; O milhão), À nous la liberté (1932; Viva a liberdade) e outras comédias. Jean Renoir desvendou com violência, ironia e compaixão as fraquezas humanas em Les Bas-fonds (1936; Bas-fonds), La Grande Illusion (1937; A grande ilusão) e La Règle du jeu (1939; A regra do jogo), estes últimos indicados crítica como dois dos maiores filmes do mundo.
Mas para a crítica, a obra O Atalante de Jean Vigo (1934), filme que descreve de forma poética as desventuras de um casal em viagem de lua-de-mel em uma pequena barca, com ambientes populares dos subúrbios das cidades francesas situadas às margens do rio navegado, é considerada o marco zero do realismo poético francês, representando a quebra da estética em relação ao cinema de vanguarda que imperava na França até então.
O naturalismo e o realismo que dominaram a tela francesa na década de 1930 apresentava personagens das classes populares em ambientes sórdidos, tratados com poesia e pessimismo. Os diretores que participaram com realce dessa fase foram Marcel Carné, Jacques Feyder, Julien Duvivier, Pierre Chenal e Marc Allegret. No âmbito populista, o maior nome foi Marcel Pagnol.
Os temas de fatalismo e injustiça que caracterizaram o realismo poético francês influenciaram o estilo filme Noir, gênero com suas histórias policiais que retratam personagens cínicos imersos em um ambiente de corrupção e devassidão. Filmes como Farrapo Humano (The Lost Weekend - 1945) e No silêncio da noite (In a Lonely Place - 1950), de maneira similar aos da primeira fase do realismo poético francês, apresentavam como protagonistas pessoas oprimidas presas a uma vida ordinária.
Com o fim da segunda guerra mundial, o cinema internacional entrou numa fase de transição que repudiava as formas tradicionais de produção e um inédito compromisso ético dos artistas. Assumindo atitude mais crítica em relação aos problemas humanos, o cinema rompeu com a tirania dos estúdios e passou a procurar nas ruas o encontro de pessoas e realidades.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Os filmes de Gângsters
Os protagonistas dos filmes de gângster são personagens que prevalecem no mundo do crime onde o sucesso depende da coragem, da sagacidade e da força bruta. A narrativa desses filmes é a ascensão e queda do herói numa trama que se encerra com a sua morte, derivada da perseguição desesperada por dinheiro e poder.
Os protagonistas dos filmes de gângster são personagens que prevalecem no mundo do crime onde o sucesso depende da coragem, da sagacidade e da força bruta. A narrativa desses filmes é a ascensão e queda do herói numa trama que se encerra com a sua morte, derivada da perseguição desesperada por dinheiro e poder.
Alma do Lodo (Little Caesar, 1930)
Os filmes de gângster exerceram uma poderosa influência na produção do filme Noir. No período da Grande Depressão, o gângster era uma figura familiar, presente nas páginas de jornais que atraía a atenção devido ao dinheiro, poder, luxo e a visão da ascensão masculina num período dramático de crise econômica que inclusive afetava a formação da identidade nacional norte-americana.
Scarface, a Vergonha de uma Nação (Scarface, 1932)
O filme de gângster é parte da cinematografia dos EUA desde The Musketeers of Pig Alley, de D.W. Griffith (1912). O filme de Josef Von Sternberg, Paixão e Sangue (Underworld, 1927) que, com seus temas de alienação, paranóia, traição, vingança e morte, mais se aproxima da composição temática e estética que viria a caracterizar o film noir.
No início da década de 30, o filme de gângster atinge seu apogeu. Produções como Alma do Lodo (Little Caesar, 1930), O Inimigo Público (The Public Enemy, 1931) e Scarface, a Vergonha de uma Nação (Scarface, 1932) contribuíram para a noção de que o gângster era uma espécie de empreendedor moderno, diferente do mero criminoso, encarnando o lado sombrio do American Dream na fase mais aguda da Depressão econômica. O ambiente criminal e a iconografia a ele associada, elementos cruciais do filme noir, estabeleceram-se, então, firmemente na consciência das platéias norte-americanas.
Seu Último Refúgio (High Sierra, 1941)
O sucesso na era da Lei Seca norte-americana perdeu-se na década de 40, apesar de algumas produções de destaque como Último Refúgio (High Sierra, 1941), Fúria Sanguinária (White Heat, 1949) e O Amanhã que Não Virá (Kiss Tomorrow Goodbye, 1950).
Fúria Sanguinária (White Heat, 1949)
Os gângsteres apresentam-se em algumas circunstâncias em muitos thrillers noirs. Geralmente são proprietários de algum clube noturno como Ballin Mundson (George Macready) em Gilda (Gilda, 1946), Martinelli em Confissão (Dead Reckoning, 1947) e Whit Sterling em Fuga do Passado (Out of the Past, 1947). Na década de 50, o filme de gângster retorna uma vez mais em produções como O Império do Crime (The Big Combo, 1955) e A Bela do Bas Fond (Party Girl, 1958).
Fonte:
http://www.jorwiki.usp.br/gdnot08/index.php/Filme_de_gângster
Os protagonistas dos filmes de gângster são personagens que prevalecem no mundo do crime onde o sucesso depende da coragem, da sagacidade e da força bruta. A narrativa desses filmes é a ascensão e queda do herói numa trama que se encerra com a sua morte, derivada da perseguição desesperada por dinheiro e poder.
Alma do Lodo (Little Caesar, 1930)
Os filmes de gângster exerceram uma poderosa influência na produção do filme Noir. No período da Grande Depressão, o gângster era uma figura familiar, presente nas páginas de jornais que atraía a atenção devido ao dinheiro, poder, luxo e a visão da ascensão masculina num período dramático de crise econômica que inclusive afetava a formação da identidade nacional norte-americana.
Scarface, a Vergonha de uma Nação (Scarface, 1932)
O filme de gângster é parte da cinematografia dos EUA desde The Musketeers of Pig Alley, de D.W. Griffith (1912). O filme de Josef Von Sternberg, Paixão e Sangue (Underworld, 1927) que, com seus temas de alienação, paranóia, traição, vingança e morte, mais se aproxima da composição temática e estética que viria a caracterizar o film noir.
No início da década de 30, o filme de gângster atinge seu apogeu. Produções como Alma do Lodo (Little Caesar, 1930), O Inimigo Público (The Public Enemy, 1931) e Scarface, a Vergonha de uma Nação (Scarface, 1932) contribuíram para a noção de que o gângster era uma espécie de empreendedor moderno, diferente do mero criminoso, encarnando o lado sombrio do American Dream na fase mais aguda da Depressão econômica. O ambiente criminal e a iconografia a ele associada, elementos cruciais do filme noir, estabeleceram-se, então, firmemente na consciência das platéias norte-americanas.
Seu Último Refúgio (High Sierra, 1941)
O sucesso na era da Lei Seca norte-americana perdeu-se na década de 40, apesar de algumas produções de destaque como Último Refúgio (High Sierra, 1941), Fúria Sanguinária (White Heat, 1949) e O Amanhã que Não Virá (Kiss Tomorrow Goodbye, 1950).
Fúria Sanguinária (White Heat, 1949)
Os gângsteres apresentam-se em algumas circunstâncias em muitos thrillers noirs. Geralmente são proprietários de algum clube noturno como Ballin Mundson (George Macready) em Gilda (Gilda, 1946), Martinelli em Confissão (Dead Reckoning, 1947) e Whit Sterling em Fuga do Passado (Out of the Past, 1947). Na década de 50, o filme de gângster retorna uma vez mais em produções como O Império do Crime (The Big Combo, 1955) e A Bela do Bas Fond (Party Girl, 1958).
Fonte:
http://www.jorwiki.usp.br/gdnot08/index.php/Filme_de_gângster
A Lei Seca - criminalidade urbana e o poder dos Gângsters
Comentei em outros posts sobre o cenário social que deu origem ao gênero Noir, citando o Crash da Bolsa de 1929 e a Segunda Guerra Mundial, fatores que apresentam-se na temática do estilo demonstrando o clima de insegurança nas cidades, pelas condições precárias dos indivíduos que não encontram ocupação ou vivem de pequenos serviços e trambiques para sobreviver (The Third Man descreve claramente esse fato, logo no início do filme). A Segunda Guerra promove a imigração dos diretores de cinema que trazem a técnica e a temática pessimista e desiludida pelos ocorridos da Guerra. Ocorre ainda um outro fato histórico neste período que contribui com outra influência para o genero Noir e que pretendo descrever a seguir: A Lei Seca e o surgimento dos Gângsters.
Quem é que já não assistiu a um filme de O Poderoso Chefão (O Padrinho, traduzindo ao pé da letra), os clássicos protagonizados por nada menos que Marlon Brando e Al Pacino? Faço inclusive um adendo para a logo do filme, perfeita nas mãos que manipulam o marionete, como fazem os poderosos gângsters da época sobre seus "súditos" ou inimigos.
Pois é justamente sobre essas figuras lendárias mas reais, presentes em território norte-americano por volta dos anos 20 que falaremos, mostrando que o período da Lei Seca não só intensificou a situação de contrabando e atividades excusas na sociedade em crise como permitiu que grupos se fortalecessem e dominassem o poder sobre tais atividades, tornando-se ainda temas correntes que influenciaram personagens e histórias para o cinema, como no caso do Noir.
Em 1920 já haviam gangues em diversas partes dos EUA, em especial em Chicago e Nova York, controlando jogos, prostituição e extorsões.
Para acabar com os problemas sociais e salvar o país da pobreza e violência, os Estados Unidos decidiram banir as bebidas alcoólicas, julgando ser o álcool o único fator dos males que os assolavam. Em vigor de 1920 a 1933 (13 anos), A Lei Seca era uma proibição oficial contra a fabricação, varejo, transporte, importação ou exportação de bebidas alcoólicas. Segundo a 18a emenda Constitucional ou Ato de Volstead, era considerada "intoxicante" qualquer bebida que tivesse mais de 0,5% de álcool (as cervejas mais fracas têm cerca de 2%).
A justificativa a tal importância dedicada à bebida parece estar no protestantismo predominante nos Estados Unidos, que inclui a idéia do "Destino Manifesto": os americanos seriam o povo eleito por Deus para guiar o mundo. Para manter a nação no caminho certo, a sobriedade deveria ser estabelecida por decreto.
Muitos americanos porém, resolveram ignorar a Lei, buscando meios para conseguir as bebidas. Muitos iam para o Canadá em busca de bebidas, outros faziam no quintal o próprio uísque. Havia ainda quem se passasse por padre ou medico para obter litros de vinho sacramental ou de destilados medicinais (que tinham uso controlado).
Sob a Lei Seca, os apreciadores de bebidas encontravam-se nos speakeasies (speak easy), bares clandestinos, muitas vezes subterrâneos, nos quais era preciso falar baixo, para não chamar atenção.
Os gângsters vêem então um novo campo de atuação com ganhos garantidos, passando a dominar os milionários negócios com bebidas, corrompendo policiais, elegendo politicos e matando seus concorrentes.
Em Nova York, o principal mafioso era o siciliano Joseph Bonanno - apontado como a inspiração de O Poderoso Chefão de Mario Puzo, que se tornou um clássico do cinema. Dean O'Banion atuava no norte de Chicago com cerveja e uísque vindos do Canadá, enquanto Johnny Torrio contratava policiais para proteger seus interesses no sul da cidade.
Alphonse Capone foi o mais lendário gângster da história, auxiliando aos 14 anos Johnny Torrio no contrabando de bebidas em Chicago até 1925, quando Torrio se aposenta e Chicago fica nas mãos daquele que expandiu os negócios para cidades como Saint Louis e Detroit. Apesar de todos os assassinatos e outros crimes atribuídos a Capone, a sonegação de impostos é que o pôs na cadeia.
Bem, o resultado de tal lei que durou 13 anos nos EUA foi a desmoralização das autoridades e um estímulo à corrupção. Cidades como Chicago e Nova York viram a criminalidade explodir, enquanto a máfia enriquecia com o contrabando de álcool.
Havia ainda uma questão de saúde pública, pois como toda bebida era proibida, inclusive a cerveja que comparada a outras tem baixo teor alcóolico, o povo passou a consumir destilados de baixa qualidade, muitas vezes não só de gosto ruim como compostas de substâncias como alvejantes, solvente de tinta e formol. A baixa qualidade das bebidas contribuiu para que os casos de morte por cirrose nos Estados Unidos praticamente não diminuíssem durante a Lei Seca.
Mesmo com a proibição da bebida para evitar a violência, entre 1920 e 1935, as taxas de assassinato cresceram 30% nos Estados Unidos, de certa forma ignorada pela prosperidade econômica até que eclodiu o Crash da Bolsa em 29, gerando mais problemas no cenário urbano com boa parte da população desempregada.
A crise foi decisiva para que a Lei Seca acabasse. Havia rumores de que legalizar as bebidas criaria empregos, estimularia a economia e aumentaria a arrecadação de impostos. Em março de 1933, Franklin Roosevelt pediu ao Congresso que legalizasse a cerveja.
Buscando um resultado sobre a Lei Seca vemos que esta mudou os hábitos da população quanto ao tipo de bebida consumida sem parar com o consumo, além de fazer da máfia e os gângsters lendas que são revividas em diversos filmes e o conhecemos mesmo nos dias de hoje.
"Nós tendemos a romancear homens como Al Capone e seus contemporâneos, mas eles eram tão violentos quanto os traficantes de drogas de hoje", afirma a jornalista inglesa Lauren Carter, autora de Os Gângsteres mais Perversos da História.
Com o Crash da Bolsa e o término da Lei Seca, houve um aumento de conflitos entre as gangues que buscavam manter seus territórios de domínio. A nova era na máfia abandonou as rixas pessoais e a influência de poder local, para se infiltrar nos cargos públicos e em redes de crime muito mais amplas. Com mais estudo, essa nova geração estabelecia vínculo com juízes, policiais e procuradores de Justiça, garantindo cada vez mais seu poder de influência entre as elites econômicas dos Estados Unidos.
Veremos no próximo post como a máfia ou os gângsters influenciaram filmes do gênero Noir, citando alguns exemplos a respeito.
Fontes:
Revista Aventuras na História (Ed. Abril)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_seca
http://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/mafia-norte-americana.htm
Quem é que já não assistiu a um filme de O Poderoso Chefão (O Padrinho, traduzindo ao pé da letra), os clássicos protagonizados por nada menos que Marlon Brando e Al Pacino? Faço inclusive um adendo para a logo do filme, perfeita nas mãos que manipulam o marionete, como fazem os poderosos gângsters da época sobre seus "súditos" ou inimigos.
Pois é justamente sobre essas figuras lendárias mas reais, presentes em território norte-americano por volta dos anos 20 que falaremos, mostrando que o período da Lei Seca não só intensificou a situação de contrabando e atividades excusas na sociedade em crise como permitiu que grupos se fortalecessem e dominassem o poder sobre tais atividades, tornando-se ainda temas correntes que influenciaram personagens e histórias para o cinema, como no caso do Noir.
Em 1920 já haviam gangues em diversas partes dos EUA, em especial em Chicago e Nova York, controlando jogos, prostituição e extorsões.
Para acabar com os problemas sociais e salvar o país da pobreza e violência, os Estados Unidos decidiram banir as bebidas alcoólicas, julgando ser o álcool o único fator dos males que os assolavam. Em vigor de 1920 a 1933 (13 anos), A Lei Seca era uma proibição oficial contra a fabricação, varejo, transporte, importação ou exportação de bebidas alcoólicas. Segundo a 18a emenda Constitucional ou Ato de Volstead, era considerada "intoxicante" qualquer bebida que tivesse mais de 0,5% de álcool (as cervejas mais fracas têm cerca de 2%).
A justificativa a tal importância dedicada à bebida parece estar no protestantismo predominante nos Estados Unidos, que inclui a idéia do "Destino Manifesto": os americanos seriam o povo eleito por Deus para guiar o mundo. Para manter a nação no caminho certo, a sobriedade deveria ser estabelecida por decreto.
Muitos americanos porém, resolveram ignorar a Lei, buscando meios para conseguir as bebidas. Muitos iam para o Canadá em busca de bebidas, outros faziam no quintal o próprio uísque. Havia ainda quem se passasse por padre ou medico para obter litros de vinho sacramental ou de destilados medicinais (que tinham uso controlado).
Sob a Lei Seca, os apreciadores de bebidas encontravam-se nos speakeasies (speak easy), bares clandestinos, muitas vezes subterrâneos, nos quais era preciso falar baixo, para não chamar atenção.
Os gângsters vêem então um novo campo de atuação com ganhos garantidos, passando a dominar os milionários negócios com bebidas, corrompendo policiais, elegendo politicos e matando seus concorrentes.
Em Nova York, o principal mafioso era o siciliano Joseph Bonanno - apontado como a inspiração de O Poderoso Chefão de Mario Puzo, que se tornou um clássico do cinema. Dean O'Banion atuava no norte de Chicago com cerveja e uísque vindos do Canadá, enquanto Johnny Torrio contratava policiais para proteger seus interesses no sul da cidade.
Alphonse Capone foi o mais lendário gângster da história, auxiliando aos 14 anos Johnny Torrio no contrabando de bebidas em Chicago até 1925, quando Torrio se aposenta e Chicago fica nas mãos daquele que expandiu os negócios para cidades como Saint Louis e Detroit. Apesar de todos os assassinatos e outros crimes atribuídos a Capone, a sonegação de impostos é que o pôs na cadeia.
Bem, o resultado de tal lei que durou 13 anos nos EUA foi a desmoralização das autoridades e um estímulo à corrupção. Cidades como Chicago e Nova York viram a criminalidade explodir, enquanto a máfia enriquecia com o contrabando de álcool.
Havia ainda uma questão de saúde pública, pois como toda bebida era proibida, inclusive a cerveja que comparada a outras tem baixo teor alcóolico, o povo passou a consumir destilados de baixa qualidade, muitas vezes não só de gosto ruim como compostas de substâncias como alvejantes, solvente de tinta e formol. A baixa qualidade das bebidas contribuiu para que os casos de morte por cirrose nos Estados Unidos praticamente não diminuíssem durante a Lei Seca.
Mesmo com a proibição da bebida para evitar a violência, entre 1920 e 1935, as taxas de assassinato cresceram 30% nos Estados Unidos, de certa forma ignorada pela prosperidade econômica até que eclodiu o Crash da Bolsa em 29, gerando mais problemas no cenário urbano com boa parte da população desempregada.
A crise foi decisiva para que a Lei Seca acabasse. Havia rumores de que legalizar as bebidas criaria empregos, estimularia a economia e aumentaria a arrecadação de impostos. Em março de 1933, Franklin Roosevelt pediu ao Congresso que legalizasse a cerveja.
Buscando um resultado sobre a Lei Seca vemos que esta mudou os hábitos da população quanto ao tipo de bebida consumida sem parar com o consumo, além de fazer da máfia e os gângsters lendas que são revividas em diversos filmes e o conhecemos mesmo nos dias de hoje.
"Nós tendemos a romancear homens como Al Capone e seus contemporâneos, mas eles eram tão violentos quanto os traficantes de drogas de hoje", afirma a jornalista inglesa Lauren Carter, autora de Os Gângsteres mais Perversos da História.
Com o Crash da Bolsa e o término da Lei Seca, houve um aumento de conflitos entre as gangues que buscavam manter seus territórios de domínio. A nova era na máfia abandonou as rixas pessoais e a influência de poder local, para se infiltrar nos cargos públicos e em redes de crime muito mais amplas. Com mais estudo, essa nova geração estabelecia vínculo com juízes, policiais e procuradores de Justiça, garantindo cada vez mais seu poder de influência entre as elites econômicas dos Estados Unidos.
Veremos no próximo post como a máfia ou os gângsters influenciaram filmes do gênero Noir, citando alguns exemplos a respeito.
Fontes:
Revista Aventuras na História (Ed. Abril)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_seca
http://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/mafia-norte-americana.htm
sábado, 9 de abril de 2011
Marvel Noir
Há alguns posts atrás busquei descrever e discutir a questão da apropriação do estilo Noir na atualidade, gerando uma série de produções cinematográficas revivendo suas características, como no caso de Sin City (2005) de Frank Miller, que sai dos quadrinhos e apropria-se das técnicas cinematográficas para reproduzir sua história, entre tantos outros que pretendo comentar adiante.
Veremos agora o inverso da situação, como é o caso da Marvel Comics, editora americana fundada em 1939 e conhecida mundialmente pelos mais importantes e populares super-heróis, anti-heróis e vilões das histórias em quadrinhos, invertendo o processo, combinando elementos do gênero policial para uma série inicial de seis volumes intitulada Marvel Noir (2009), onde os heróis encontram-se no submundo criminoso de Manhattan, Nova York, na década de 1930.
Nesse contexto, os heróis não tem poderes, mas habilidades associadas ao poder original. Exemplo é Wolverine, um detetive que não possui as garras de adamantium mas quando jovem teve treinamento com facas e as segura entre os dedos quando em ação.
A descrição oficial do conceito da publicação pela Marvel: “A Grande Depressão acabou e um misterioso mundo emergiu. A multidão encontra-se desiludida e o poder corrompido. Esse mundo clama desesperadamente por heróis. E como identificá-los? Eles são reconhecíveis, mas de maneiras inesperadas. São pessoas que devem tomar uma posição e encontrar o herói - ou o vilão - em cada um deles. Mistérios de assassinato e mutilação envolvem este difícil mundo. Bem-vindo ao mundo de Marvel Noir”. (http://marvel.com/news/story/4839/marvel_noir_set_for_2009).
Observa-se na série um ambiente com personagens ambíguos revelando suas identidades em um mundo marcado pela incerteza e a violência. Antes conhecidos nos quadrinhos e produções cinematográficas pelos atos heróicos em benefício da humanidade, os personagens desta série nem sempre ocupam o comportamento original, como por exemplo o Professor Xavier de X-Men que em Marvel Noir possui uma escola que treina alunos para o crime, alterando o contexto de sua personalidade com tendências para o mal, ou oposta ao que frequentemente é conhecido.
Reparem na estética refinada dos quadrinhos, com elementos da fotografia e os enquadramentos que caracterizam o Noir. Mesmo com o uso da cor, em especial no interior dos quadrinhos, sendo o uso alto contraste em preto e branco com maior frequência nas capas com interferência apenas do vermelho em alguns casos, a arte interna apresenta o contraste das áreas em negro que mantém o predomínio da luz e sombra e o clima que remete ao estilo cinematográfico.
A temática gira em torno de crimes e a ambiguidade dos personagens, a presença da corrupção, a femme fatale, em pleno submundo de Manhattan, sob os mesmos impasses sociais da Grande Depressão já descritos algumas vezes quanto do surgimento do Noir.
É interessante observar como as artes sempre influenciam-se pelos acontecimentos vividos na sociedade.
Lendo um artigo de René Gomes Rodrigues Jarcem para a Faculdade Maurício de Nassau intitulado "A História das Histórias em Quadrinhos" (http://www.historiaimagem.com.br/edicao5setembro2007/06-historia-hq-jarcem.pdf), este inicia com a seguinte frase:
“As Histórias em Quadrinhos, como todas as formas de arte, fazem parte do contexto histórico e social que as cercam. Elas não surgem isoladas e isentas de influências. Na verdade, as ideologias e o momento político moldam, de maneira decisiva, até mesmo o mais descompromissado dos gibis.(...)” JOATAN PREIS DUTRA
Ele cita justamente o período do Crash da Bolsa e as tendências nos quadrinhos: "O crack da Bolsa de Valores em 1929 foi um ponto importante na história da história em quadrinhos, e nos anos 30 eles cresceram, invadindo o gênero da aventura. Flash Gordon, de Alex Raymond, Dick Tracy, de Chester Gould e a adaptação de Hal Foster para o Tarzan de E. R. Borroughs são conhecidos como o início da A Era de Ouro (Golden Age). Nesta década, três gêneros essenciais eram produzidos: a ficção científica, o policial e as aventuras na selva."
..."No final da década de 30, surgiu o primeiro super-herói que possuía identidade secreta, Superman de Siegel and Shuster. Muitos o destacam como o personagem que marca o início da Era de Ouro."
Vemos que a impressões vividas na sociedade geram uma reação e forte influência sobre as manifestações artísticas e uma forte semelhança em especial na temática do cinema noir e os quadrinhos, ambos considerados gêneros da cultura de massa.
Comparando os filmes da atualidade com o período clássico do Noir, assim como os quadrinhos que são tema deste post, os clássicos parecem ter um enfoque mais psicológico, onde sexo e violência participam da trama mas de forma sugestiva e os fatos ganham intensidade gradativa. Na atualidade, tudo é explícito e exagerado, desde os contrastes e a violência, em um ritmo acelerado de acontecimentos. Os personagens, aparentemente frios, pareciam dissimular suas fraquezas a fim de sobreviver diante da crueldade urbana. Na produção atual, há predileção pelo personagem frio sem expressão, além do prazer no crime e na violência, utilizados para o alcance de seus objetivos, anestesiados de qualquer sentimento ou valor moral, chegando à mudança da personalidade e atuação como vemos nos quadrinhos.
Sobre os títulos disponíveis na série Marvel Noir encontramos Wolverine, Daredevil, X-Men, Iron Men, Punisher e Spider Men.
Até há bem pouco tempo só havia a opção em inglês para baixar na internet ou ainda adquirir os exemplares pela Amazon, mas eis que descobri esta semana a edição em português do Homem Aranha, que vem pela editora Panini, disponível ainda na Livraria da Folha, por pouco mais de R$15,. Quem sabe em breve teremos todas as edições disponíveis em território nacional.
Termino disponibilizando outras belas páginas dos quadrinhos inspirados no gênero Noir.
Veremos agora o inverso da situação, como é o caso da Marvel Comics, editora americana fundada em 1939 e conhecida mundialmente pelos mais importantes e populares super-heróis, anti-heróis e vilões das histórias em quadrinhos, invertendo o processo, combinando elementos do gênero policial para uma série inicial de seis volumes intitulada Marvel Noir (2009), onde os heróis encontram-se no submundo criminoso de Manhattan, Nova York, na década de 1930.
Nesse contexto, os heróis não tem poderes, mas habilidades associadas ao poder original. Exemplo é Wolverine, um detetive que não possui as garras de adamantium mas quando jovem teve treinamento com facas e as segura entre os dedos quando em ação.
A descrição oficial do conceito da publicação pela Marvel: “A Grande Depressão acabou e um misterioso mundo emergiu. A multidão encontra-se desiludida e o poder corrompido. Esse mundo clama desesperadamente por heróis. E como identificá-los? Eles são reconhecíveis, mas de maneiras inesperadas. São pessoas que devem tomar uma posição e encontrar o herói - ou o vilão - em cada um deles. Mistérios de assassinato e mutilação envolvem este difícil mundo. Bem-vindo ao mundo de Marvel Noir”. (http://marvel.com/news/story/4839/marvel_noir_set_for_2009).
Observa-se na série um ambiente com personagens ambíguos revelando suas identidades em um mundo marcado pela incerteza e a violência. Antes conhecidos nos quadrinhos e produções cinematográficas pelos atos heróicos em benefício da humanidade, os personagens desta série nem sempre ocupam o comportamento original, como por exemplo o Professor Xavier de X-Men que em Marvel Noir possui uma escola que treina alunos para o crime, alterando o contexto de sua personalidade com tendências para o mal, ou oposta ao que frequentemente é conhecido.
Reparem na estética refinada dos quadrinhos, com elementos da fotografia e os enquadramentos que caracterizam o Noir. Mesmo com o uso da cor, em especial no interior dos quadrinhos, sendo o uso alto contraste em preto e branco com maior frequência nas capas com interferência apenas do vermelho em alguns casos, a arte interna apresenta o contraste das áreas em negro que mantém o predomínio da luz e sombra e o clima que remete ao estilo cinematográfico.
A temática gira em torno de crimes e a ambiguidade dos personagens, a presença da corrupção, a femme fatale, em pleno submundo de Manhattan, sob os mesmos impasses sociais da Grande Depressão já descritos algumas vezes quanto do surgimento do Noir.
É interessante observar como as artes sempre influenciam-se pelos acontecimentos vividos na sociedade.
Lendo um artigo de René Gomes Rodrigues Jarcem para a Faculdade Maurício de Nassau intitulado "A História das Histórias em Quadrinhos" (http://www.historiaimagem.com.br/edicao5setembro2007/06-historia-hq-jarcem.pdf), este inicia com a seguinte frase:
“As Histórias em Quadrinhos, como todas as formas de arte, fazem parte do contexto histórico e social que as cercam. Elas não surgem isoladas e isentas de influências. Na verdade, as ideologias e o momento político moldam, de maneira decisiva, até mesmo o mais descompromissado dos gibis.(...)” JOATAN PREIS DUTRA
Ele cita justamente o período do Crash da Bolsa e as tendências nos quadrinhos: "O crack da Bolsa de Valores em 1929 foi um ponto importante na história da história em quadrinhos, e nos anos 30 eles cresceram, invadindo o gênero da aventura. Flash Gordon, de Alex Raymond, Dick Tracy, de Chester Gould e a adaptação de Hal Foster para o Tarzan de E. R. Borroughs são conhecidos como o início da A Era de Ouro (Golden Age). Nesta década, três gêneros essenciais eram produzidos: a ficção científica, o policial e as aventuras na selva."
..."No final da década de 30, surgiu o primeiro super-herói que possuía identidade secreta, Superman de Siegel and Shuster. Muitos o destacam como o personagem que marca o início da Era de Ouro."
Vemos que a impressões vividas na sociedade geram uma reação e forte influência sobre as manifestações artísticas e uma forte semelhança em especial na temática do cinema noir e os quadrinhos, ambos considerados gêneros da cultura de massa.
Comparando os filmes da atualidade com o período clássico do Noir, assim como os quadrinhos que são tema deste post, os clássicos parecem ter um enfoque mais psicológico, onde sexo e violência participam da trama mas de forma sugestiva e os fatos ganham intensidade gradativa. Na atualidade, tudo é explícito e exagerado, desde os contrastes e a violência, em um ritmo acelerado de acontecimentos. Os personagens, aparentemente frios, pareciam dissimular suas fraquezas a fim de sobreviver diante da crueldade urbana. Na produção atual, há predileção pelo personagem frio sem expressão, além do prazer no crime e na violência, utilizados para o alcance de seus objetivos, anestesiados de qualquer sentimento ou valor moral, chegando à mudança da personalidade e atuação como vemos nos quadrinhos.
Sobre os títulos disponíveis na série Marvel Noir encontramos Wolverine, Daredevil, X-Men, Iron Men, Punisher e Spider Men.
Até há bem pouco tempo só havia a opção em inglês para baixar na internet ou ainda adquirir os exemplares pela Amazon, mas eis que descobri esta semana a edição em português do Homem Aranha, que vem pela editora Panini, disponível ainda na Livraria da Folha, por pouco mais de R$15,. Quem sabe em breve teremos todas as edições disponíveis em território nacional.
Termino disponibilizando outras belas páginas dos quadrinhos inspirados no gênero Noir.
sábado, 2 de abril de 2011
O pastiche ou apropriação - uma análise sobre o noir na atualidade - Parte III
Finalmente chegamos ao terceiro e último post onde analisamos a apropriação do gênero Noir como tendência na atualidade.
Vimos os comentários de estudiosos, posições negativas quanto a apropriação, sendo o pastiche uma forma "cega" e "vazia", reduzida a imitação, outras que enxergam como uma renovação e até mesmo uma necessidade da contemporaneidade, devido à condição de estranhamento em relação ao momento vivido, buscando no passado referências que possam explicar ou dar sentido a este que hora participamos e hora nos distanciamos.
Em uma primeira análise, podemos ver no Noir uma forma de filmar que, circulando por diversos estilos, apropriou-se de algumas de suas características atribuindo-lhe uma roupagem nova culminando na associação de elementos do gênero em si.
The Big Combo - 1955
A meu ver, o Noir já transitava pela apropriação e fez surgir um gênero carregado de experimentação da técnica cinematográfica, além de ter a liberdade de exibir uma temática muito próxima do momento vivido - relembrando, as condições sociais nos Estados Unidos diante do Crash da Bolsa e a Segunda Guerra em seguida - e todo o clima sombrio carregado de dúvidas, desconfiança e incerteza eram o reflexo do sentimento que pairava no país e adiante, no mundo.
Já o ressurgimento nos últimos 25 anos do gênero, trazido em parte pelos meios acadêmicos e jornalísticos, surgindo produções que apropriam-se das técnicas e estilo com consequente interesse do público ao ponto deste tornar-se cult nos faz pensar quais fatores levaram a tal redescoberta, e quero crer que não se trata apenas de um bom trabalho da mídia.
Primeiramente, fala-se no interesse pela alta qualidade técnica e fotográfica além do tema realista. Ma não podemos nos esquecer da existência na atualidade da corrupção e insegurança, as dúvidas quanto ao período em que vivemos, em constante e acelerada mudança.
The Maltese Falcon - 1941
A angústia extende-se ainda em relação ao ambiente urbano onde ambição, egoísmo e materialidade predominam, com diferenças sociais e a decadência dos valores morais que geram uma forte insegurança entre o homem e seu meio, outra forte identificação que refere-se a temática do Noir pela semelhança do sentimento e condições do indivíduo desde a origem do estilo. Talvez essa gama de fatores permitam uma comparação em relação à época do surgimento deste gênero cinematográfico.
Pensando no cinema e seu papel como entretenimento, podemos analisar a tendência em algumas produções na atualidade, carregadas de efeitos especiais e nem sempre com conteúdo, além da promoção constante de atores e atrizes como símbolos e referências de estilo. Esses são outros fatores que podem explicar o retorno ao passado e resgate de uma arte de estética refinada, dotada de alta criatividade técnica e temática mais próxima da realidade, livre dos estereótipos que mascaram a condição humana.
Side Street - 1950
O Noir atende ao entretenimento, mas fala do humano e a ameaça que a cidade e outros elementos, como por exemplo a figura feminina, provocam, sem sentimentalismos ou máscaras que encubram suas deficiências, em especial as morais. Com técnica meticulosamente dirigida, mostra o lado sombrio da humanidade, trazendo à luz a verdade.
Out of Past - 1947
Numa sociedade em que a imagem se faz mais importante do que nossa essência, vivendo em um ambiente de concreto frio que parece refletir-se no comportamento humano, no Noir, a máscara extingue-se ao revelar o que se passa no interior das mentes, nos redimindo e nos aproximando da essência humana, buscando refletir sobre a real condição em que vivemos.
Mauro Baptista, doutor em Artes pela USP, diz que o “Noir significou, na época, um revigoramento do cinema americano” e que “os filmes Noir eram um lugar de experimentação numa época onde o cinema americano dominava o mercado mundial”. (Revista Quem Fev/2006). O cinema americano dominante de que ele fala eram os glamourosos e otimistas musicais que buscavam camuflar a situação social vigente.
Quero crer que a apropriação do gênero na atualidade está mais próxima da análise acima, assim como a de Giorgio Agamben, sobre a tendência no contemporâneo de resgatar sentido no passado para entender o momento atual. Penso ainda que o retorno do Noir trouxe um revigoramento e renovação do estilo, tal como acontece em diversos campos como a moda, por exemplo, onde o homem consegue, a partir de referências do passado, trazer à tona a lembrança e uma nova visão a respeito.
Esta é a opinião desta que escreve. Permito que o leitor aproprie-se ou participe desta análise ou discorde totalmente, discutindo a respeito.
Vimos os comentários de estudiosos, posições negativas quanto a apropriação, sendo o pastiche uma forma "cega" e "vazia", reduzida a imitação, outras que enxergam como uma renovação e até mesmo uma necessidade da contemporaneidade, devido à condição de estranhamento em relação ao momento vivido, buscando no passado referências que possam explicar ou dar sentido a este que hora participamos e hora nos distanciamos.
Em uma primeira análise, podemos ver no Noir uma forma de filmar que, circulando por diversos estilos, apropriou-se de algumas de suas características atribuindo-lhe uma roupagem nova culminando na associação de elementos do gênero em si.
The Big Combo - 1955
A meu ver, o Noir já transitava pela apropriação e fez surgir um gênero carregado de experimentação da técnica cinematográfica, além de ter a liberdade de exibir uma temática muito próxima do momento vivido - relembrando, as condições sociais nos Estados Unidos diante do Crash da Bolsa e a Segunda Guerra em seguida - e todo o clima sombrio carregado de dúvidas, desconfiança e incerteza eram o reflexo do sentimento que pairava no país e adiante, no mundo.
Já o ressurgimento nos últimos 25 anos do gênero, trazido em parte pelos meios acadêmicos e jornalísticos, surgindo produções que apropriam-se das técnicas e estilo com consequente interesse do público ao ponto deste tornar-se cult nos faz pensar quais fatores levaram a tal redescoberta, e quero crer que não se trata apenas de um bom trabalho da mídia.
Primeiramente, fala-se no interesse pela alta qualidade técnica e fotográfica além do tema realista. Ma não podemos nos esquecer da existência na atualidade da corrupção e insegurança, as dúvidas quanto ao período em que vivemos, em constante e acelerada mudança.
The Maltese Falcon - 1941
A angústia extende-se ainda em relação ao ambiente urbano onde ambição, egoísmo e materialidade predominam, com diferenças sociais e a decadência dos valores morais que geram uma forte insegurança entre o homem e seu meio, outra forte identificação que refere-se a temática do Noir pela semelhança do sentimento e condições do indivíduo desde a origem do estilo. Talvez essa gama de fatores permitam uma comparação em relação à época do surgimento deste gênero cinematográfico.
Pensando no cinema e seu papel como entretenimento, podemos analisar a tendência em algumas produções na atualidade, carregadas de efeitos especiais e nem sempre com conteúdo, além da promoção constante de atores e atrizes como símbolos e referências de estilo. Esses são outros fatores que podem explicar o retorno ao passado e resgate de uma arte de estética refinada, dotada de alta criatividade técnica e temática mais próxima da realidade, livre dos estereótipos que mascaram a condição humana.
Side Street - 1950
O Noir atende ao entretenimento, mas fala do humano e a ameaça que a cidade e outros elementos, como por exemplo a figura feminina, provocam, sem sentimentalismos ou máscaras que encubram suas deficiências, em especial as morais. Com técnica meticulosamente dirigida, mostra o lado sombrio da humanidade, trazendo à luz a verdade.
Out of Past - 1947
Numa sociedade em que a imagem se faz mais importante do que nossa essência, vivendo em um ambiente de concreto frio que parece refletir-se no comportamento humano, no Noir, a máscara extingue-se ao revelar o que se passa no interior das mentes, nos redimindo e nos aproximando da essência humana, buscando refletir sobre a real condição em que vivemos.
Mauro Baptista, doutor em Artes pela USP, diz que o “Noir significou, na época, um revigoramento do cinema americano” e que “os filmes Noir eram um lugar de experimentação numa época onde o cinema americano dominava o mercado mundial”. (Revista Quem Fev/2006). O cinema americano dominante de que ele fala eram os glamourosos e otimistas musicais que buscavam camuflar a situação social vigente.
Quero crer que a apropriação do gênero na atualidade está mais próxima da análise acima, assim como a de Giorgio Agamben, sobre a tendência no contemporâneo de resgatar sentido no passado para entender o momento atual. Penso ainda que o retorno do Noir trouxe um revigoramento e renovação do estilo, tal como acontece em diversos campos como a moda, por exemplo, onde o homem consegue, a partir de referências do passado, trazer à tona a lembrança e uma nova visão a respeito.
Esta é a opinião desta que escreve. Permito que o leitor aproprie-se ou participe desta análise ou discorde totalmente, discutindo a respeito.
quinta-feira, 31 de março de 2011
O pastiche ou apropriação - uma análise sobre o noir na atualidade - Parte I
Pastiche ou apropriação é definido como obra literária ou artística em que se imita grosseiramente o estilo de outros escritores, pintores, músicos, etc.
Pode ser plágio com sentido pejorativo, ou é uma recorrência a um gênero. É ainda uma espécie de colagem ou montagem, tornando-se uma paródia em série ou colcha de retalhos de vários textos. Antes de tudo, é um procedimento que mescla estilos.
Pensando no Noir clássico e a tendência no contemporâneo da apropriação do estilo, pretendemos analisar o porque dessa retomada, ciente do processo pelo qual passou o gênero quando de sua retomada pela mídia e público, chegando a categoria de cult em diversos grupos.
Segundo Mauro Baptista, doutor em artes da USP, “O Noir, em sua época, não foi tão valorizado. Eram filmes que iam sendo feitos e não eram percebidos como conjunto. Nos últimos 25 anos, houve um enorme número de publicações sobre o Noir - jornalística, acadêmica, de pesquisa. Ele foi muito retomado pelo cinema moderno. O Noir tem uma fotografia excepcional, de grandes contrastes de luz e sombras. E não tem esse triunfalismo, esse final feliz, das produções classe A americanas, nem essa coisa melodramática, sentimentalóide. Isso fez com que o Noir ficasse cult.”
Diversos estudiosos analisam o pastiche ou apropriação demonstrando suas conclusões a respeito.
Para Fredric Jameson, o pastiche apropria-se das imagens e as manipula como imitação ou com fim estético ou lúdico. É forma “cega” ou “vazia”, destituída de padrões morais, sem referências claras pela fragmentação e explosão de estilos já todos criados, reduzido a “reabilitação nostálgica do passado”.
Jameson, ao falar do pastiche e a moda da nostalgia, refere-se ao cinema citando o filme Corpos Ardentes (Body Heat, 1981 - EUA) como uma remontagem do clássico Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944 - EUA), sendo “o plágio alusivo e fugidio de tramas mais antigas...uma característica do pastiche”.
Hasan e Compagnon apresentam-se mais otimistas, o primeiro encarando o pastiche como colaboração para a criação de algo novo ao evocar estilos de outras épocas e Compagnon vendo-o como o rejuvenescimento da tradição no rastreamento e conjugação de diferentes estilos.
Giorgio Agamben analisa a condição do homem contemporâneo, e considera haver um descompasso entre o homem e seu tempo, causando estranheza e incompreensão, onde o entendimento do momento vivido pede uma postura de participação e distanciamento, e não situando-se no presente, busca-se no passado referências para dar-lhe sentido.
Entendendo que o Noir clássico surgiu com uma postura de certa liberdade quanto à aplicação e experimentação das técnicas e temática realista, revelando o lado sombrio da sociedade, vemos na atualidade um ressurgimento do gênero por parte de público e crítica, inicialmente atraídos pela temática crua e qualidade técnica, talvez levados por uma identificação com boa parte das características que o constituem. No próximo post, veremos mais sobre os filmes citados, seguindo com uma conclusão pessoal mais a frente.
Referências
JAMESON, Fredric, Pós-Modernidade e Sociedade de Consumo. In “Novos Estudos CEBRAP”, nº 12, São Paulo, 1985.
HASAN,Ihab.The question of Postmodernism.Apud ROSE, 1993.
COMPAGNON, Antoine. La seconde main ou le travail de citation. Paris: Éditions du Seuil,1979.
AGAMBEN, G. O que é contemporâneo? e outros ensaios. Argos. 2009.
Pastiche: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pastiche
Revista Quem (Fevereiro 2006). http://revistaquem.globo.com/Quem/0,6993,EQG1122610-3428,00.html
Pode ser plágio com sentido pejorativo, ou é uma recorrência a um gênero. É ainda uma espécie de colagem ou montagem, tornando-se uma paródia em série ou colcha de retalhos de vários textos. Antes de tudo, é um procedimento que mescla estilos.
Pensando no Noir clássico e a tendência no contemporâneo da apropriação do estilo, pretendemos analisar o porque dessa retomada, ciente do processo pelo qual passou o gênero quando de sua retomada pela mídia e público, chegando a categoria de cult em diversos grupos.
Segundo Mauro Baptista, doutor em artes da USP, “O Noir, em sua época, não foi tão valorizado. Eram filmes que iam sendo feitos e não eram percebidos como conjunto. Nos últimos 25 anos, houve um enorme número de publicações sobre o Noir - jornalística, acadêmica, de pesquisa. Ele foi muito retomado pelo cinema moderno. O Noir tem uma fotografia excepcional, de grandes contrastes de luz e sombras. E não tem esse triunfalismo, esse final feliz, das produções classe A americanas, nem essa coisa melodramática, sentimentalóide. Isso fez com que o Noir ficasse cult.”
Diversos estudiosos analisam o pastiche ou apropriação demonstrando suas conclusões a respeito.
Para Fredric Jameson, o pastiche apropria-se das imagens e as manipula como imitação ou com fim estético ou lúdico. É forma “cega” ou “vazia”, destituída de padrões morais, sem referências claras pela fragmentação e explosão de estilos já todos criados, reduzido a “reabilitação nostálgica do passado”.
Jameson, ao falar do pastiche e a moda da nostalgia, refere-se ao cinema citando o filme Corpos Ardentes (Body Heat, 1981 - EUA) como uma remontagem do clássico Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944 - EUA), sendo “o plágio alusivo e fugidio de tramas mais antigas...uma característica do pastiche”.
Hasan e Compagnon apresentam-se mais otimistas, o primeiro encarando o pastiche como colaboração para a criação de algo novo ao evocar estilos de outras épocas e Compagnon vendo-o como o rejuvenescimento da tradição no rastreamento e conjugação de diferentes estilos.
Giorgio Agamben analisa a condição do homem contemporâneo, e considera haver um descompasso entre o homem e seu tempo, causando estranheza e incompreensão, onde o entendimento do momento vivido pede uma postura de participação e distanciamento, e não situando-se no presente, busca-se no passado referências para dar-lhe sentido.
Entendendo que o Noir clássico surgiu com uma postura de certa liberdade quanto à aplicação e experimentação das técnicas e temática realista, revelando o lado sombrio da sociedade, vemos na atualidade um ressurgimento do gênero por parte de público e crítica, inicialmente atraídos pela temática crua e qualidade técnica, talvez levados por uma identificação com boa parte das características que o constituem. No próximo post, veremos mais sobre os filmes citados, seguindo com uma conclusão pessoal mais a frente.
Referências
JAMESON, Fredric, Pós-Modernidade e Sociedade de Consumo. In “Novos Estudos CEBRAP”, nº 12, São Paulo, 1985.
HASAN,Ihab.The question of Postmodernism.Apud ROSE, 1993.
COMPAGNON, Antoine. La seconde main ou le travail de citation. Paris: Éditions du Seuil,1979.
AGAMBEN, G. O que é contemporâneo? e outros ensaios. Argos. 2009.
Pastiche: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pastiche
Revista Quem (Fevereiro 2006). http://revistaquem.globo.com/Quem/0,6993,EQG1122610-3428,00.html
O pastiche ou apropriação - uma análise sobre o noir na atualidade - Parte II
Seguindo com os comentários sobre a apropriação ou pastiche defendido por Fredric Jameson, citando Corpos Ardentes como "plágio" alusivo de Pacto de Sangue, pretendo neste post falar um pouco dos 2 filmes para que o leitor possa analisar e tirar por si algumas conclusões, analisando a tendência da apropriação do gênero, trazendo de volta um estilo para os dias atuais.
Double Indemnity (1944)
107 min - EUA
Crime | Film-Noir | Thriller
Billy Wilder
“Fiz por dinheiro e por uma mulher. Fiquei sem o dinheiro e também sem a mulher.”, diz Walter Neff (Fred MacMurray).
Assim conclui o protagonista do clássico Pacto de Sangue, quando da chegada a seguradora onde trabalha e resolve gravar sua confissão como criminoso, iniciando assim toda a trama deste engenhoso filme.
Walter Neff chega ao edifício onde trabalha. Em sua sala, ferido e sangrando, grava sua confissão de assassinato ao gerente e amigo Barton Keyes, o que fez por dinheiro e por uma bela mulher, a Sra. Phyllis Dietrichson com quem se envolvera poucos meses antes, ao procurar seu marido, na mansão da família, para renovar o seguro de seus carros.
Seduzido por Phyllis desde o primeiro momento em que a vê, Neff começa a pensar no crime do marido indesejado que fora sugerido por Phyllis, baseado em seu conhecimento sobre seguros de vida.
O crime parece perfeito, cada detalhe é repassado minuciosamente pelos amantes até a consumação do ato, porém, como todo bom clássico noir, nenhum ato vão sairá impune, e vemos o desenrolar do medo, ansiedade, desconfiança, tomando conta dos personagens levando a um clima tenso e angustiante.
Em um roteiro bem estruturado e uma bela fotografia, Wilder e o detetive romancista Raymond Chandler constróem uma grande obra, baseada na história de um crime ocorrido em março de 1927, em Nova York, envolvendo a dona-de-casa Ruth Snyder e seu amante, Judd Gray, um vendedor de 32 anos.
Pacto de Sangue é um filme carregado de elementos Noir, entre eles o perseguido, - vemos na maior parte do tempo tentando não ser descoberto pelo sagaz chefe Barton Keyes (Edward G. Robinson) - a femme fatale Phillis, a mulher sedutora que conquista o personagem Neff e o manipula ao ato do crime. A narrativa em primeira pessoa com flashback do personagem declarando os fatos do crime, a fotografia com predomínio do ambiente escuro, as cenas quase sempre noturnas. Vemos ainda a cena urbana em ambientes amplos e a projeção da luz das janelas sobre o protagonista e criminoso, como que marcando um enclausurado em sua própria angústia.
A ambiguidade dos personagens é nítida, como no caso de Neff que incomoda-se com as sugestões não declaradas de Phyllis para que este cometa o assassinato do marido, única solução, segundo ela, de obter a herança, até que cego de desejo resolve concordar e prepar um plano detalhado com base na experiência do corretor de seguros a fim de resultar em um crime acima de qualquer suspeita que permita a remuneração como resultado final.
A figura do chefe de Neff (Barton Keyes), veterano investigador de seguros, inflexível e capaz de identificar qualquer reivindicação desonesta, é o homem que parece deixar-se levar pela amizade não desconfiando em nenhum momento do amigo e parceiro de trabalho.
Em Pacto de Sangue não é a câmera que envolve o espectador acompanhando a trama pela ótica do criminoso, mas a narrativa que mostra ao longo do filme o ponto de vista de A Neff sobre o decorrer dos acontecimentos.
“O cara que você procurava estava muito perto Keyes, do outro lado da sua mesa”. “Mais perto que isso Walter”. “Também te amo Keyes”. Este diálogo final mostra a amizade entre os detetives, ainda que Keyes cumpra ao final seu dever entregando Neff para a polícia, mesmo que o criminoso já acreditasse estar a beira da morte.
Body Heat (1981)
113 min - EUA
Crime | Drama | Thriller
Lawrence Kasdan
Corpos Ardentes parece ser sem dúvida uma remontagem do clássico de 1944, tal como compara Jameson.
Ned Racine é um advogado de uma cidade pequena na Flórida que conhece Matty Walker, mulher de um magnata que costuma viajar a negócios. O encontro os leva a tornarem-se amantes e em seguida planejarem a morte do rico marido Edmund, a fim de que possam estar livres para permanecem juntos e com a fortuna da qual Matty tornaria-se herdeira.
Alguns traços marcantes que apresentam-se no Noir, como a fotografia contrastada e tomadas de câmeras não convencionais não se apresentam em Corpos Ardentes. O “plágio” descrito por Jameson está no tema, onde os amantes planejam o assassinato do marido indesejável a fim de tomar para si a herança. O desfecho, porém, difere no fatalismo de Pacto de Sangue com a morte dos amantes. Em Corpos Ardentes, a fuga da esposa que realiza o sonho de viver em um ambiente exótico em grande estilo, deixando o cúmplice atrás das grades - este percebendo ter sido manipulado desde o momento do encontro até as juras intensas durante os encontros sexuais - acaba por demonstrar um desfecho não menos fatalista, ainda que apenas para um dos lados, deixando ainda um gosto cínico e amargo de que o crime compensa (pelo menos para alguns, não é, Matty?).
Recomendo aos leitores que assistam aos dois filmes e analisem a tendência da apropriação sobre a ótica de Jameson mas também dos já citados na primeira parte desta análise. Tirem suas conclusões e descrevam em seguida aqui em nosso espaço para mais discussões.
Double Indemnity (1944)
107 min - EUA
Crime | Film-Noir | Thriller
Billy Wilder
“Fiz por dinheiro e por uma mulher. Fiquei sem o dinheiro e também sem a mulher.”, diz Walter Neff (Fred MacMurray).
Assim conclui o protagonista do clássico Pacto de Sangue, quando da chegada a seguradora onde trabalha e resolve gravar sua confissão como criminoso, iniciando assim toda a trama deste engenhoso filme.
Walter Neff chega ao edifício onde trabalha. Em sua sala, ferido e sangrando, grava sua confissão de assassinato ao gerente e amigo Barton Keyes, o que fez por dinheiro e por uma bela mulher, a Sra. Phyllis Dietrichson com quem se envolvera poucos meses antes, ao procurar seu marido, na mansão da família, para renovar o seguro de seus carros.
Seduzido por Phyllis desde o primeiro momento em que a vê, Neff começa a pensar no crime do marido indesejado que fora sugerido por Phyllis, baseado em seu conhecimento sobre seguros de vida.
O crime parece perfeito, cada detalhe é repassado minuciosamente pelos amantes até a consumação do ato, porém, como todo bom clássico noir, nenhum ato vão sairá impune, e vemos o desenrolar do medo, ansiedade, desconfiança, tomando conta dos personagens levando a um clima tenso e angustiante.
Em um roteiro bem estruturado e uma bela fotografia, Wilder e o detetive romancista Raymond Chandler constróem uma grande obra, baseada na história de um crime ocorrido em março de 1927, em Nova York, envolvendo a dona-de-casa Ruth Snyder e seu amante, Judd Gray, um vendedor de 32 anos.
Pacto de Sangue é um filme carregado de elementos Noir, entre eles o perseguido, - vemos na maior parte do tempo tentando não ser descoberto pelo sagaz chefe Barton Keyes (Edward G. Robinson) - a femme fatale Phillis, a mulher sedutora que conquista o personagem Neff e o manipula ao ato do crime. A narrativa em primeira pessoa com flashback do personagem declarando os fatos do crime, a fotografia com predomínio do ambiente escuro, as cenas quase sempre noturnas. Vemos ainda a cena urbana em ambientes amplos e a projeção da luz das janelas sobre o protagonista e criminoso, como que marcando um enclausurado em sua própria angústia.
A ambiguidade dos personagens é nítida, como no caso de Neff que incomoda-se com as sugestões não declaradas de Phyllis para que este cometa o assassinato do marido, única solução, segundo ela, de obter a herança, até que cego de desejo resolve concordar e prepar um plano detalhado com base na experiência do corretor de seguros a fim de resultar em um crime acima de qualquer suspeita que permita a remuneração como resultado final.
A figura do chefe de Neff (Barton Keyes), veterano investigador de seguros, inflexível e capaz de identificar qualquer reivindicação desonesta, é o homem que parece deixar-se levar pela amizade não desconfiando em nenhum momento do amigo e parceiro de trabalho.
Em Pacto de Sangue não é a câmera que envolve o espectador acompanhando a trama pela ótica do criminoso, mas a narrativa que mostra ao longo do filme o ponto de vista de A Neff sobre o decorrer dos acontecimentos.
“O cara que você procurava estava muito perto Keyes, do outro lado da sua mesa”. “Mais perto que isso Walter”. “Também te amo Keyes”. Este diálogo final mostra a amizade entre os detetives, ainda que Keyes cumpra ao final seu dever entregando Neff para a polícia, mesmo que o criminoso já acreditasse estar a beira da morte.
Body Heat (1981)
113 min - EUA
Crime | Drama | Thriller
Lawrence Kasdan
Corpos Ardentes parece ser sem dúvida uma remontagem do clássico de 1944, tal como compara Jameson.
Ned Racine é um advogado de uma cidade pequena na Flórida que conhece Matty Walker, mulher de um magnata que costuma viajar a negócios. O encontro os leva a tornarem-se amantes e em seguida planejarem a morte do rico marido Edmund, a fim de que possam estar livres para permanecem juntos e com a fortuna da qual Matty tornaria-se herdeira.
Alguns traços marcantes que apresentam-se no Noir, como a fotografia contrastada e tomadas de câmeras não convencionais não se apresentam em Corpos Ardentes. O “plágio” descrito por Jameson está no tema, onde os amantes planejam o assassinato do marido indesejável a fim de tomar para si a herança. O desfecho, porém, difere no fatalismo de Pacto de Sangue com a morte dos amantes. Em Corpos Ardentes, a fuga da esposa que realiza o sonho de viver em um ambiente exótico em grande estilo, deixando o cúmplice atrás das grades - este percebendo ter sido manipulado desde o momento do encontro até as juras intensas durante os encontros sexuais - acaba por demonstrar um desfecho não menos fatalista, ainda que apenas para um dos lados, deixando ainda um gosto cínico e amargo de que o crime compensa (pelo menos para alguns, não é, Matty?).
Recomendo aos leitores que assistam aos dois filmes e analisem a tendência da apropriação sobre a ótica de Jameson mas também dos já citados na primeira parte desta análise. Tirem suas conclusões e descrevam em seguida aqui em nosso espaço para mais discussões.
quinta-feira, 24 de março de 2011
Estética Noir
Após decrever as influências que permitiram o surgimento do gênero tema deste blog, falemos agora sobre a estética:
A diversidade de influências no Noir apresenta-se num complexo conjunto de elementos caracterizando sua estética.
Na fotografia predomina o preto e branco e alto contraste, com sombras profundas e iluminação dirigida cuidadosamente, conferindo o clima obscuro com maior dramaticidade às cenas, contribuindo para a construção do suspense.
Quando desceram as trevas (Ministry of Fear, Fritz Lang - 1944)
Os ângulos não convencionais e a câmera subjetiva levam o espectador a ver com os olhos do personagem. Por meio de ploungés e contra-ploungés a câmera filma acima ou abaixo do personagem, atribuindo-lhe situação inferior ou superior, acuado ou dominante ou ainda opressor.
Side Street (Anthony Mann - 1950)
As fontes isoladas de luz, profundidade de campo e locações naturais criam um clima entre o sonho e a realidade, perturbando e desnorteando o espectador para que sinta o mal-estar do personagem. Os closes muito próximos exploram a angústia do personagem e os big close-ups ou tomada geral representam o sentimento de tristeza e desolação nas histórias.
Sin City (Frank Miller, Robert Rodriguez - 2005)
A Marca da Maldade - Touch of Evil (Orson Welles - 1958)
Sombras do Mal (Night and City, Jules Dassin - 1950)
O uso de espelhos e janelas (ou persianas) provocam a ideia do quadro dentro do quadro, causando a sensação de claustrofobia. Sugere ainda a ligação da realidade e os sonhos, pesadelos, medos e ilusões dos personagens, além de mostrar a ambiguidade pela dualidade ou desespero. A sobreposição sobre o rosto do personagem de suas sombras e linhas parece distinguí-lo dos demais elementos da cena, como se este estivesse confinado a situação de perigo, quebra de conduta ou morte.
A Dama de Shangai (The Lady from Shanghai, Orson Welles - 1947)
Pacto de Sangue (Double Indemnity - Billy Wilder) - 1944.
A paisagem urbana com predomínio de cenas noturnas é o cenário da ação, revela os personagens e fornece a atmosfera geralmente perturbadora.
A fumaça é outro elemento que colabora com a sensação de perturbação, pois a associação da névoa com as cidades, ambientadas na maioria durante a noite em ruas e becos escuros, simbolizando os perigos da vida urbana, intensificam o mistério nas cenas. A fumaça refere-se ainda aos personagens, quando da representação da masculinidade ou sensualidade feminina, traços constantes pela presença corrente do personagem fumando nas cenas.
Side Street (Anthony Mann - 1950)
Rajada de Morte - The Big Combo (Joseph H. Lewis - 1955)
A narrativa ocorre em geral em flashback e primeira pessoa, com voz off descrevendo o passado e conduzindo o espectador ao trauma do personagem. A trilha sonora e os ruídos criam ainda o clima sugerido pela cena.
Há três arquétipos principais presentes no Noir: o que procura a verdade, não necessariamente um homem da lei, o perseguido, originário do existencialismo e fatalismo que pode levá-lo a atos criminosos e a femme fatale, visão da mulher como ameaça de concorrência no mercado de trabalho na Segunda Guerra, gerando um clima de desconfiança e impotência à sociedade patriarcal, relacionando o feminino a traições, ambição, promiscuidade sexual e persuasão do homem pela sedução para o crime.
Lana Turner - The Postman Always Rings Twice (1946).
Os temas pautam-se no pessimismo e personagens presos ao destino sem esperança de redenção. Crime, assassinato, traição, ciúmes, corrupção e fatalismo são temas correntes. O passado sombrio e o pesadelo fatalista, aspectos do existencialismo e a psicologia freudiana, afirmam o absurdo da existência e a importância do individualismo. O passado é o pesadelo ameaçador onde não há como escapar do desfecho fatal.
O Falcão Maltês - The Maltese Falcon (John Huston - 1941)
Pacto de Sangue - Double Indemnity (Billy Wilder - 1944)
Segundo o crítico de cinema Paul Schrader, “um filme Noir usa técnicas que enfatizam perda, nostalgia, lacunas e insegurança”, e mais tomadas com cenas noturnas e roteiros onde o suspense prevaleça”. (“Notes on Film Noir” - 1972).
Para Maximo Barrio, profissional de cinema e responsável pela filmoteca da FAAP, “não é o tema do Noir que o caracteriza”, ainda que cinismo, traição, dúvida, sejam uma forma de crítica à sociedade vigente. “Esses temas de violência e crime vem do Protestantismo alemão e americano que é por si mesmo pessimista, daí o retrato do final fatalista em sua maioria.”
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