The Lady from Shanghai
USA - 1947
87 min
Crime | Drama | Film-Noir
Direção: Orson Welles
Astros e estrelas: Rita Hayworth, Orson Welles and Everett Sloane
A Dama de Shanghai, filme de Orson Welles, é um noir muito apreciado e comentado, e eu diria que trata-se de um filme com uma mistura de dois caminhos aparentemente ambíguos, mas com características que culminam em concluí-lo como um representante do gênero que merece atenção e comentários.
O filme inicia com a voz off do protagonista Michael O’Hara (o próprio Welles), contando em flashback como deixou-se enganar ao ponto de cair em uma cilada por uma bela loira - até aí, o flashback, a temática que o levará a algum risco ou dificuldade, quem sabe um final fatal, levado por uma femme fatale de quem Michael não conseguiu resistir aos encantos - mas logo em seguida, as imagens exóticas das viagens no iate do Sr e Sra Bannister, em cenas em sua maioria em plenos dias ensolarados em belas praias ou em alto-mar parece destoar do padrão noturno de boa parte dos filmes que conhecemos.
Acontece porém que, em meio aos cenários exóticos e paradisíacos, percebe-se a tensão constante entre os personagens, Elsa (Rita Rayworth) tentando seduzir Michael para si, enquanto permanece ao lado do marido, um homem com alguma deficiência que o faz caminhar com dificuldade com o auxílio de uma muleta, envoltos nas palavras cortantes de uma relação desgastada mas mantida por interesses econômicos.
Interessante é a cena em que param em uma praia a fim de fazer um picnic, e Michael descreve uma cena que presenciara com Tubarões que destruíram-se uns aos outros, estes comparados a relação que ele via entre o casal e o sócio do Sr Bannister.
Ocorre que, mesmo Michael parecendo perspicaz e com alguma vivência que o livraria de qualquer dificuldade, sua obscessão por Elsa parece cegá-lo ao ponto de aceitar um acordo de suposto assassinato a fim de ganhar uma soma em dinheiro e levá-la consigo para longe da situação indesejada.
O resultado é um assassinato e um suspeito em um tribunal a caminho da condenação à câmara de gás.
Mas A Dama de Shanghai reserva muitas surpresas, e considero a partir daí a parte boa do filme, onde as características do Noir evidenciam-se e a trama ganha força e suspense.
A cena do parque de diversões abandonado, onde Michael foi escondido e preso, com as imagens das salas com espelhos distorcidos, as paredes e pisos que lembram de imediato o expressionismo de O Gabinete do Dr. Caligari, reforçando a confusão e o atordoamento mental em que se encontra o próprio personagem – enquanto sua voz em “off” nos explica as causas de tal confusão - justificam e coroam toda a trama até então com um toque um tanto inocente e ainda sem toda a devida consistência do gênero.
O labirinto dos espelhos revela a imagem dos personagens duplicados, tal qual seus dramas, conflitos e mesmo a dualidade de sua personalidades, onde a verdade se revela e os "tubarões" finalmente se encontram, cansados de lutar por algo já desgastado e não lhes resta nada além da morte.
A Dama de Shanghai sem dúvida imortalizou-se como um dos ícones do Noir pela trama e as cenas atordoantes e labirínticas entre espelhos que revelam a dualidade do ser. Dualidade esta a ponto de culminar em um final trágico e um homem a salvo de toda a culpa, menos da lembrança do desejo por uma mulher que parece que não o abandonará até o final de seus dias.
Experimento Noir é um espaço de troca de experiências e experimentos que bebam da fonte do gênero noir.
Participe para saber mais e envie a sua colaboração. Após análise, publico com crédito do experimentador.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Uma viagem sobre a noite e as sombras
Truffault diz que "o noir excita o imaginário". E não seria esta a base de boa parte das tramas Noir, em suas noites cheias de névoas e vultos que não distinguimos por completo, expondo os personagens a toda sorte, à mercê da insegurança sobre o desfecho de tal situação?
Em uma conversa e análise de todo o estudo sobre o Noir, Tina, coordenadora do curso da pós descreveu que "A sombra é a metáfora mais clara da dupla visão sombreada do real, que escapa às teses iluministas e cartesianas do mundo".
Ou seja, o Iluminismo pretendia trazer à luz toda a verdade, disponível a qualquer indivíduo, verdade sempre controlada pelo Clero e mantida enclausurada até então, distante do homem que via-se controlado pelo medo.
Mas o homem é esse ser obscuro que nem mesmo se conhece por completo, tamanha mutação que vive a cada fase da vida e ainda de acordo com certas influências externas. Há uma sombra no auto conhecimento, e ainda, a sombra que encobre desejos e possibilidades de atos muitas vezes impensáveis.
O Iluminismo trouze a luz ao homem, mas desconhecia ou deslechou-se em perceber que essa verdade não seria o bastante ou toda a verdade, uma vez que o homem é dual e complexo, tal como a análise de Nietszche sobre o bem e o mal, onde diz que não é possível analisar o ser por uma ou outra postura, tamanha sua complexidade e reações de acordo com o ambiente, seu histórico e a natureza do ser.
Referências:
GILLAIN, Anne. O cinema segundo François Truffaut, Ed Nova Fronteira.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Além do Bem e do Mal, Companhia de Bolso, 2005.
Em uma conversa e análise de todo o estudo sobre o Noir, Tina, coordenadora do curso da pós descreveu que "A sombra é a metáfora mais clara da dupla visão sombreada do real, que escapa às teses iluministas e cartesianas do mundo".
Ou seja, o Iluminismo pretendia trazer à luz toda a verdade, disponível a qualquer indivíduo, verdade sempre controlada pelo Clero e mantida enclausurada até então, distante do homem que via-se controlado pelo medo.
Mas o homem é esse ser obscuro que nem mesmo se conhece por completo, tamanha mutação que vive a cada fase da vida e ainda de acordo com certas influências externas. Há uma sombra no auto conhecimento, e ainda, a sombra que encobre desejos e possibilidades de atos muitas vezes impensáveis.
O Iluminismo trouze a luz ao homem, mas desconhecia ou deslechou-se em perceber que essa verdade não seria o bastante ou toda a verdade, uma vez que o homem é dual e complexo, tal como a análise de Nietszche sobre o bem e o mal, onde diz que não é possível analisar o ser por uma ou outra postura, tamanha sua complexidade e reações de acordo com o ambiente, seu histórico e a natureza do ser.
Referências:
GILLAIN, Anne. O cinema segundo François Truffaut, Ed Nova Fronteira.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Além do Bem e do Mal, Companhia de Bolso, 2005.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Cartazes - The Lady From Shanghai - 1947
O clássico e muito comentado filme Noir A Dama de Shangai, filme de Orson Welles com a então esposa - já em vias de separação - Rita Rayworth, em diversos cartazes, em sua maioria produzidos em diversas ilustrações. Reparem na repetição de alguns cartazes com a bela Femme fatale em primeiro plano e o seduzido Michael O'Hara ao fundo.
Gostei particulamente do último com referências orientais e o segundo no estilo oriental de fato, que enfatiza a cena dos espelhos, cena esta que imortalizou uma característica do gênero que faz deste um exemplo sempre lembrado como citação.
Gostei particulamente do último com referências orientais e o segundo no estilo oriental de fato, que enfatiza a cena dos espelhos, cena esta que imortalizou uma característica do gênero que faz deste um exemplo sempre lembrado como citação.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Scarface - 1932
Scarface (1932)
93 min - USA
Crime | Drama | Film-Noir
Howard Hawks, Richard Rosson
Pode parecer uma tendência nostálgica, mas quando me deparo com um filme como o original de 1932, baseado no livro de Armitage Trail, com uma temática violenta e crua sobre gângsters muito bem produzido diretor Howard Hawks, não há como deixar de valorizar a grandeza da obra como ainda comparar com a releitura com Al Pacino e perceber suas evidentes diferenças.
O filme já inicia com um questionamento crítico acerca da falta de atitude governamental em relação a tomada da cidade pela ação violenta de gângsters, cobrando a devida postura para acabar com a criminalidade.
Com algumas diferenças de roteiro em relação a produção de 83, Tony Camonte é o empregado do poderoso gângster Johnny Lovo, e sua ambição e violência o levará mais tarde a assumir o poder, vivendo sempre com a polícia em seu encalço a fim de obter provas para capturá-lo. E claro, o fim de sua família, o melhor amigo, a irmã a quem venera e seu próprio destino estão fadados ao desfecho fatal.
O filme mostra com detalhes a ação violenta da gangue, que cobra os devedores de Lovo chegando a "queima de arquivo" ou devedores indesejáveis, onde a marca registrada de Tony é a chegada com um assobio de uma canção que prenuncia o assassinato da próxima vítima.
Vemos ainda a luta por território entre as gangues, com recados através de corpos sem vida deixados pelas ruas escuras, as ações no tráfico de armas, onde tal situação começa a ser questionada pela sociedade cobrando maior dedicação por parte da polícia que tem como dever defender a população.
Numa cena impressionante, os dias passam na folhinha tão rápido quanto os tiros de uma metralhadora faz seu serviço, mostrando a ação da máfia sem tréguas.
Tony Camonte é um homem engomado, com cabelos empastelados de brilhantina e as roupas de fino caimento, porém a fala dura, os gestos vulgares e a petulância de conquistar a qualquer preço o que deseja mostra sua verdadeira essência, detalhes que parecem não incomodar a esposa de Lovo que em muitas cenas parece gostar de seu ar petulante e deixa a visão de interessar-se por estar em sua companhia.
The World is Yours é visto da janela de Tony e este a tem como uma mensagem destinada a sua pessoa, e a mensagem está presente ao final do filme, com seu assasinato pela polícia na calçada em frente a sua casa, onde o luminoso prossegue no avançar da noite diante do final trágico diante de si.
Várias cenas são referências para as influências que nos remete ao Noir, como os diálogos cortantes, a sombra no início do filme que surge ao som de um assobio e realiza o assassinato do último grande líder de gangue Big Louis Costillo, o contraste do claro-escuro na cena de um beco onde de uma parede de tijolos vemos várias silhuetas de homens dispostos lado a lado e são exterminados pelo som de tiros de metralhadoras. Vale lembrar ainda algumas cenas onde a luz atravessa as frestas das janelas, como na cena em que Tony conversa com o detetive, afirmando sua inocência frente a qualquer acusação de atos criminosos.
Scarface apresenta muita ação e violência, onde a ambição de tomar tudo para si é a máxima em todo o filme.
E como todo bom filme de gângster, o final fatal encerra a trama, com raras exceções, é certo, como Don Corleone que morre em casa e junto da família, mas claro que não se trata da constante que nos deparamos com a maioria dos filmes do gênero.
O que é importante dizer é que Scarface de 32 é um filme consistente e digno de ser visto.
O filme de 83, com Al Pacino, não deixa de ser interessante, mas perde muito do brilho após conhecer este de que falo. Michelle Pfiffer é insossa no papel, não há química entre ela e Pacino, pouco mostra-se de fato as ações dos gângsters e algumas cenas de tiroteio batariam por menor tempo de filmagem. No caso de Scarface de Hawks, as mulheres, tanto a irmã como a mulher de Lovo tem muito mais personalidade e atitude. Tony é o gângster nato, portando uma bela cicatriz no rosto e a malícia do bandido sem escrúpulos. As cenas de perseguição e violência urbana intensificam o clima e nos remete à cidade acuada.
Passei um dia inteiro baixando 8 partes mais a legenda - que então mostrou-se em alemão, então descartei e preferi assistir na íntegra em inglês - e posso dizer que valeu cada minuto de espera para assitir a obra na íntegra, que até então só conhecia partes assistidas no YouTube, este mais uma vez colaborando com alguns trechos para ilustrar este post e quem sabe, aguçar a curiosidade do leitor e estimular a procura para assistir ao filme.
93 min - USA
Crime | Drama | Film-Noir
Howard Hawks, Richard Rosson
Pode parecer uma tendência nostálgica, mas quando me deparo com um filme como o original de 1932, baseado no livro de Armitage Trail, com uma temática violenta e crua sobre gângsters muito bem produzido diretor Howard Hawks, não há como deixar de valorizar a grandeza da obra como ainda comparar com a releitura com Al Pacino e perceber suas evidentes diferenças.
O filme já inicia com um questionamento crítico acerca da falta de atitude governamental em relação a tomada da cidade pela ação violenta de gângsters, cobrando a devida postura para acabar com a criminalidade.
Com algumas diferenças de roteiro em relação a produção de 83, Tony Camonte é o empregado do poderoso gângster Johnny Lovo, e sua ambição e violência o levará mais tarde a assumir o poder, vivendo sempre com a polícia em seu encalço a fim de obter provas para capturá-lo. E claro, o fim de sua família, o melhor amigo, a irmã a quem venera e seu próprio destino estão fadados ao desfecho fatal.
O filme mostra com detalhes a ação violenta da gangue, que cobra os devedores de Lovo chegando a "queima de arquivo" ou devedores indesejáveis, onde a marca registrada de Tony é a chegada com um assobio de uma canção que prenuncia o assassinato da próxima vítima.
Vemos ainda a luta por território entre as gangues, com recados através de corpos sem vida deixados pelas ruas escuras, as ações no tráfico de armas, onde tal situação começa a ser questionada pela sociedade cobrando maior dedicação por parte da polícia que tem como dever defender a população.
Numa cena impressionante, os dias passam na folhinha tão rápido quanto os tiros de uma metralhadora faz seu serviço, mostrando a ação da máfia sem tréguas.
Tony Camonte é um homem engomado, com cabelos empastelados de brilhantina e as roupas de fino caimento, porém a fala dura, os gestos vulgares e a petulância de conquistar a qualquer preço o que deseja mostra sua verdadeira essência, detalhes que parecem não incomodar a esposa de Lovo que em muitas cenas parece gostar de seu ar petulante e deixa a visão de interessar-se por estar em sua companhia.
The World is Yours é visto da janela de Tony e este a tem como uma mensagem destinada a sua pessoa, e a mensagem está presente ao final do filme, com seu assasinato pela polícia na calçada em frente a sua casa, onde o luminoso prossegue no avançar da noite diante do final trágico diante de si.
Várias cenas são referências para as influências que nos remete ao Noir, como os diálogos cortantes, a sombra no início do filme que surge ao som de um assobio e realiza o assassinato do último grande líder de gangue Big Louis Costillo, o contraste do claro-escuro na cena de um beco onde de uma parede de tijolos vemos várias silhuetas de homens dispostos lado a lado e são exterminados pelo som de tiros de metralhadoras. Vale lembrar ainda algumas cenas onde a luz atravessa as frestas das janelas, como na cena em que Tony conversa com o detetive, afirmando sua inocência frente a qualquer acusação de atos criminosos.
Scarface apresenta muita ação e violência, onde a ambição de tomar tudo para si é a máxima em todo o filme.
E como todo bom filme de gângster, o final fatal encerra a trama, com raras exceções, é certo, como Don Corleone que morre em casa e junto da família, mas claro que não se trata da constante que nos deparamos com a maioria dos filmes do gênero.
O que é importante dizer é que Scarface de 32 é um filme consistente e digno de ser visto.
O filme de 83, com Al Pacino, não deixa de ser interessante, mas perde muito do brilho após conhecer este de que falo. Michelle Pfiffer é insossa no papel, não há química entre ela e Pacino, pouco mostra-se de fato as ações dos gângsters e algumas cenas de tiroteio batariam por menor tempo de filmagem. No caso de Scarface de Hawks, as mulheres, tanto a irmã como a mulher de Lovo tem muito mais personalidade e atitude. Tony é o gângster nato, portando uma bela cicatriz no rosto e a malícia do bandido sem escrúpulos. As cenas de perseguição e violência urbana intensificam o clima e nos remete à cidade acuada.
Passei um dia inteiro baixando 8 partes mais a legenda - que então mostrou-se em alemão, então descartei e preferi assistir na íntegra em inglês - e posso dizer que valeu cada minuto de espera para assitir a obra na íntegra, que até então só conhecia partes assistidas no YouTube, este mais uma vez colaborando com alguns trechos para ilustrar este post e quem sabe, aguçar a curiosidade do leitor e estimular a procura para assistir ao filme.
domingo, 29 de maio de 2011
Scarface - The World is Yours
Scarface
1983 - 170 min
Crime | Drama | Thriller
Brian De Palma
Alta violência, ambição desmedida, ação imediata para conquistar o desejado, jogos arriscados e mortes, muitas mortes. Eu diria que essa é a base de Scarface.
Em 1980, Tony Montana, um cubano que foge da tirania de Fidel junto com seu grande amigo, pede asilo nos Estados Unidos e aguarda em um campo de refugiados a liberação de seu Green Card para partir para a Flórida e recomeçar a vida, o que consegue com o assassinato de um ex-assessor de Fidel, a mando de um rico comerciante de cocaína, que mais tarde será seu patrão, após uma arriscada mas bem-sucedida transação que o destaca como um homem interessante para os negócios em Miami.
Tony é o homem que passa por cima de quem julga fraco - como seu chefe, desejando inclusive sua mulher (Michelle Pfiffer) - tomando a frente na negociações com o poderoso e perigoso traficante da Bolívia Alejandro Sosa, o que lhe proporciona uma ascenção meteórica de ganhos e poder, porém na mesma medida os inimigos, os perigos e a paranoia de controlar tudo e quase temer a própria sombra.
Tony Montana é o "ladrão de galinhas cubano" que decide vencer na vida a qualquer preço. Ele passa por cima de tudo e todos, até mesmo da felicidade de sua família, mesmo com a constante afirmação de que faz tudo em busca de sua proteção e bem-estar. Como diz sua mãe, ele estraga tudo em que toca ou se aproxima.
Vemos sua degradação a passos largos, do distanciamento até o abandono da esposa - sim, Tony mata seu ex-chefe, toma para si a insossa esposa drogada que em pouco tempo o despreza - da irmã que o venera até que este a faz infeliz matando seu marido, outra situação que sugere uma espécie de desejo incestuoso que o faz não permitir que nenhum homem aproxime-se dela, e finalmente sua entrega a bebidas e drogas, numa cena final em que sua mesa é um mar de pó em que este mergulha o nariz e suga o quanto pode, deixando-o fora de si ao ponto de levá-lo a morte com a invasão de diversos atiradores em sua mansão, terminando em uma chacina e corpos banhados em sangue.
E assim termina a trajetória de Tony Montana, caído nas águas do chafariz no meio da grande e luxosa sala, onde vemos o grande globo com a inscrição "The World is Yours".
Algumas considerações que podemos ainda fazer é sobre o papel de Al Pacino que difere dos muitos papéis de gângsters que o vemos protagonizano, sempre mais refinados. Em Scarface, ele é o homem sem refino nem tutano. Parece agir mais por impulso e de acordo com seu estado de ânimo, diferente em O Poderoso Chefão, onde ele é o estrategista, o que o faz o preferido de Don Corleone e o mais apropriado para assumir os "negócios" da família.
Analisando sobre aspectos da influência dos filmes de gângsters com o noir, eu citaria os temas como ambição, o clima violento e a tragédia familiar, encabeçada pelo protagonista que parece ter nascido para o final fatal.
Trata-se de um filme duro, violento e sangrento. Brian de Palma dirigiu com maestria este Triller, mostrando a face sórdida do mundo do crime e o final a que os grandes nomes desse mundo estão fadados e deparar-se.
1983 - 170 min
Crime | Drama | Thriller
Brian De Palma
Alta violência, ambição desmedida, ação imediata para conquistar o desejado, jogos arriscados e mortes, muitas mortes. Eu diria que essa é a base de Scarface.
Em 1980, Tony Montana, um cubano que foge da tirania de Fidel junto com seu grande amigo, pede asilo nos Estados Unidos e aguarda em um campo de refugiados a liberação de seu Green Card para partir para a Flórida e recomeçar a vida, o que consegue com o assassinato de um ex-assessor de Fidel, a mando de um rico comerciante de cocaína, que mais tarde será seu patrão, após uma arriscada mas bem-sucedida transação que o destaca como um homem interessante para os negócios em Miami.
Tony é o homem que passa por cima de quem julga fraco - como seu chefe, desejando inclusive sua mulher (Michelle Pfiffer) - tomando a frente na negociações com o poderoso e perigoso traficante da Bolívia Alejandro Sosa, o que lhe proporciona uma ascenção meteórica de ganhos e poder, porém na mesma medida os inimigos, os perigos e a paranoia de controlar tudo e quase temer a própria sombra.
Tony Montana é o "ladrão de galinhas cubano" que decide vencer na vida a qualquer preço. Ele passa por cima de tudo e todos, até mesmo da felicidade de sua família, mesmo com a constante afirmação de que faz tudo em busca de sua proteção e bem-estar. Como diz sua mãe, ele estraga tudo em que toca ou se aproxima.
Vemos sua degradação a passos largos, do distanciamento até o abandono da esposa - sim, Tony mata seu ex-chefe, toma para si a insossa esposa drogada que em pouco tempo o despreza - da irmã que o venera até que este a faz infeliz matando seu marido, outra situação que sugere uma espécie de desejo incestuoso que o faz não permitir que nenhum homem aproxime-se dela, e finalmente sua entrega a bebidas e drogas, numa cena final em que sua mesa é um mar de pó em que este mergulha o nariz e suga o quanto pode, deixando-o fora de si ao ponto de levá-lo a morte com a invasão de diversos atiradores em sua mansão, terminando em uma chacina e corpos banhados em sangue.
E assim termina a trajetória de Tony Montana, caído nas águas do chafariz no meio da grande e luxosa sala, onde vemos o grande globo com a inscrição "The World is Yours".
Algumas considerações que podemos ainda fazer é sobre o papel de Al Pacino que difere dos muitos papéis de gângsters que o vemos protagonizano, sempre mais refinados. Em Scarface, ele é o homem sem refino nem tutano. Parece agir mais por impulso e de acordo com seu estado de ânimo, diferente em O Poderoso Chefão, onde ele é o estrategista, o que o faz o preferido de Don Corleone e o mais apropriado para assumir os "negócios" da família.
Analisando sobre aspectos da influência dos filmes de gângsters com o noir, eu citaria os temas como ambição, o clima violento e a tragédia familiar, encabeçada pelo protagonista que parece ter nascido para o final fatal.
Trata-se de um filme duro, violento e sangrento. Brian de Palma dirigiu com maestria este Triller, mostrando a face sórdida do mundo do crime e o final a que os grandes nomes desse mundo estão fadados e deparar-se.
sábado, 28 de maio de 2011
Um olá ao leitor.
Após a tão esperada apresentação do trabalho final da pós - ufa, bem-sucedida por sinal - e uma semana de freelas em design que não me permitiram cuidar de novas postagens, retorno à casa para dizer-vos que não abandonei este espaço negro e sombrio, mas que retornarei muito em breve com novidades, como uma comparação, em homenagem a mais nova conhecida e apaixonada pelo gênero Aline, do filme Scarface de 32, e com Al Pacino, de 83.
Em seguida, tentarei falar da grande obra Blade Runner, considerado um technoir.
Deixo como retorno os alguns cartazes do gênero, muitas vezes relacionado como gênero de filme de gângster ou noir, sempre tão violento e sombrio que merece a comparação e citação, de Scarface.
Aguardem os próximos posts.
Em seguida, tentarei falar da grande obra Blade Runner, considerado um technoir.
Deixo como retorno os alguns cartazes do gênero, muitas vezes relacionado como gênero de filme de gângster ou noir, sempre tão violento e sombrio que merece a comparação e citação, de Scarface.
Aguardem os próximos posts.
domingo, 22 de maio de 2011
Cinema Noir - Espelho E Fotografia
Autor: ORTEGOSA, MARCIA
Editora: ANNABLUME
Assunto: CINEMA
140 págs.
2010
Mais uma indicação de livro sobre o Noir, desta vez o exemplar de Marcia Ortegosa que escreve este livro a partir de uma tese, e contribui bastante para o leitor que quer iniciar seus conhecimentos a respeito do gênero.
Sinopse: The Lady from Shangai' (1948), 'Blade Runner' (1982) e 'The Public Eye' (1992) são os três filmes do núcleo deste livro. Juntando os fragmentos, os indícios na busca da revelação do que se esconde, apresentam semelhantes processamentos de linguagem. Nessa cadeia de significações, chega-se ao outro, o espelho sígnico, resgatando as conotações e ambiguidades que a estética de sombra e luzes do noir propicia. Espelho e fotografia (dois modos de parar o tempo) são metáforas da reflexão crítica, da 'pensatividade'. A fotografia, com o congelamento das imagens, rompe a velocidade do tempo. O espelho cria duplicatas, fragmentações. Através desses dois elementos estéticos, esse livro discute questões ligadas ao tempo, ao espaço e a representação. Numa abordagem metalinguística e intertextual, este trabalho procura dialogar com as artes pictóricas, a literatura, a fotografia, o cinema e o universo fílmico, pensando as imagens num processo relacional, em constante atualização e espelhamento.
Editora: ANNABLUME
Assunto: CINEMA
140 págs.
2010
Mais uma indicação de livro sobre o Noir, desta vez o exemplar de Marcia Ortegosa que escreve este livro a partir de uma tese, e contribui bastante para o leitor que quer iniciar seus conhecimentos a respeito do gênero.
Sinopse: The Lady from Shangai' (1948), 'Blade Runner' (1982) e 'The Public Eye' (1992) são os três filmes do núcleo deste livro. Juntando os fragmentos, os indícios na busca da revelação do que se esconde, apresentam semelhantes processamentos de linguagem. Nessa cadeia de significações, chega-se ao outro, o espelho sígnico, resgatando as conotações e ambiguidades que a estética de sombra e luzes do noir propicia. Espelho e fotografia (dois modos de parar o tempo) são metáforas da reflexão crítica, da 'pensatividade'. A fotografia, com o congelamento das imagens, rompe a velocidade do tempo. O espelho cria duplicatas, fragmentações. Através desses dois elementos estéticos, esse livro discute questões ligadas ao tempo, ao espaço e a representação. Numa abordagem metalinguística e intertextual, este trabalho procura dialogar com as artes pictóricas, a literatura, a fotografia, o cinema e o universo fílmico, pensando as imagens num processo relacional, em constante atualização e espelhamento.
The Art Of Noir
Autor: MULLER, EDDIE
Editora: OVERLOOK PRESS
Assunto: CINEMA
2004
Estava circulando pela Livraria Cultura, na sessão de cinema, a procura de um livro que fala do cinema dos anos 60/70, e eis que me deparo com este interessante livro com nada menos que diversos cartazes dirigidos exclusivamente ao filme Noir.
Durante a era dourada do noir, estúdios encomendavam ilustrações para prender a atenção ao mais humilde thriller 'B', divulgando em detalhes o filme por meio da arte do cartaz.
The Art of Noir, segundo as editoras, é o primeiro livro a apresentar esta obra notável em grande formato, com mais de 250 cartazes deslumbrantes, lobby cards e material promocional.
Você encontrará clássicos como Out of the Past, The Big Sleep, podendo checar a arte dos cartazes de filmes raros. O perito em Noir Eddie Muller fornece informações básicas sobre os créditos aos ilustradores.
Sem dúvida, é uma boa referência não só do gênero como da arte do cartaz cinematográfico, a maioria neste caso em belas ilustrações.
domingo, 8 de maio de 2011
Os 50 melhores Noir, segundo o imdb
1. 8.7 Sunset Blvd. (1950)
2. 8.6 Double Indemnity (1944)
3. 8.5 The Third Man (1949)
4. 8.4 The Maltese Falcon (1941)
5. 8.3 Touch of Evil (1958)
6. 8.3 Strangers on a Train (1951)
7. 8.2 Notorious (1946)
8. 8.2 The Big Sleep (1946)
9. 8.2 Ace in the Hole (1951)
10. 8.2 White Heat (1949) - **
11. 8.2 Rififi (1955)
12. 8.2 The Night of the Hunter (1955)
13. 8.2 The Killing (1956)
14. 8.2 Laura (1944)
15. 8.2 Sweet Smell of Success (1957)
16. 8.1 Shadow of a Doubt (1943)
17. 8.1 Out of the Past (1947)
18. 8.0 In a Lonely Place (1950)
19. 8.0 Night and the City (1950)
20. 8.0 The Big Heat (1953)
21. 8.0 Key Largo (1948)
22. 8.0 The Killers (1946)
23. 7.9 The Asphalt Jungle (1950)
24. 7.9 Mildred Pierce (1945)
25. 7.9 Angels with Dirty Faces (1938)
26. 7.9 Pickup on South Street (1953)
27. 7.9 Scarface (1932) - **
28. 7.9 Body and Soul (1947)
29. 7.9 Scarlet Street (1945)
30. 7.9 Bob le Flambeur (1956)
31. 7.9 The Set-Up (1949)
32. 7.8 Gun Crazy (1950)
33. 7.8 Thieves' Highway (1949)
34. 7.8 The Woman in the Window (1944)
35. 7.8 The Narrow Margin (1952)
36. 7.8 Nightmare Alley (1947)
37. 7.8 The Letter (1940)
38. 7.8 Gilda (1946) 9,603
39. 7.8 The Lady from Shanghai (1947)
40. 7.7 The Big Clock (1948)
41. 7.7 The Naked City (1948)
42. 7.7 Brute Force (1947)
43. 7.7 Where the Sidewalk Ends (1950)
44. 7.7 Kiss Me Deadly (1955)
45. 7.7 Murder, My Sweet (1944)
46. 7.7 This Gun for Hire (1942)
47. 7.7 Spellbound (1945)
48. 7.6 Detective Story (1951)
49. 7.6 Leave Her to Heaven (1945)
50. 7.6 High Sierra (1941) - **
** Em outras pesquisas, estes são citados como filmes de gângsters.
http://www.imdb.com/chart/filmnoir
2. 8.6 Double Indemnity (1944)
3. 8.5 The Third Man (1949)
4. 8.4 The Maltese Falcon (1941)
5. 8.3 Touch of Evil (1958)
6. 8.3 Strangers on a Train (1951)
7. 8.2 Notorious (1946)
8. 8.2 The Big Sleep (1946)
9. 8.2 Ace in the Hole (1951)
10. 8.2 White Heat (1949) - **
11. 8.2 Rififi (1955)
12. 8.2 The Night of the Hunter (1955)
13. 8.2 The Killing (1956)
14. 8.2 Laura (1944)
15. 8.2 Sweet Smell of Success (1957)
16. 8.1 Shadow of a Doubt (1943)
17. 8.1 Out of the Past (1947)
18. 8.0 In a Lonely Place (1950)
19. 8.0 Night and the City (1950)
20. 8.0 The Big Heat (1953)
21. 8.0 Key Largo (1948)
22. 8.0 The Killers (1946)
23. 7.9 The Asphalt Jungle (1950)
24. 7.9 Mildred Pierce (1945)
25. 7.9 Angels with Dirty Faces (1938)
26. 7.9 Pickup on South Street (1953)
27. 7.9 Scarface (1932) - **
28. 7.9 Body and Soul (1947)
29. 7.9 Scarlet Street (1945)
30. 7.9 Bob le Flambeur (1956)
31. 7.9 The Set-Up (1949)
32. 7.8 Gun Crazy (1950)
33. 7.8 Thieves' Highway (1949)
34. 7.8 The Woman in the Window (1944)
35. 7.8 The Narrow Margin (1952)
36. 7.8 Nightmare Alley (1947)
37. 7.8 The Letter (1940)
38. 7.8 Gilda (1946) 9,603
39. 7.8 The Lady from Shanghai (1947)
40. 7.7 The Big Clock (1948)
41. 7.7 The Naked City (1948)
42. 7.7 Brute Force (1947)
43. 7.7 Where the Sidewalk Ends (1950)
44. 7.7 Kiss Me Deadly (1955)
45. 7.7 Murder, My Sweet (1944)
46. 7.7 This Gun for Hire (1942)
47. 7.7 Spellbound (1945)
48. 7.6 Detective Story (1951)
49. 7.6 Leave Her to Heaven (1945)
50. 7.6 High Sierra (1941) - **
** Em outras pesquisas, estes são citados como filmes de gângsters.
http://www.imdb.com/chart/filmnoir
O neorealismo italiano, a visão da realidade.
Outra influência do Noir que enfatiza a temática realista, repudiando o cinema espetáculo, é o neorealimo itaiano, movimento que reagiu ao fascismo e à participação italiana na Segunda Guerra Mundial, retratando a classe trabalhadora urbana de então, assombrada pelo desemprego. Com duração em torno de 10 anos (1943 a 1953), seu período mais significativo ocorreu de 45 a 48.
Marcada pela ditadura de Benito Mussolini nas décadas anteriores, a Itália do pós-guerra era um país devastado, com uma economia em grandes dificuldades e que sentia a difícil transição da agricultura para a indústria. Esta realidade não se via no cinema italiano, com temas fantasiosos e irreais, além de produções vindas de Hollywood. Neste contexto, os neo-realistas reclamavam que o cinema devia “enxergar” e analisar a realidade, mostrando a vida italiana sem embelezamento. A filosofia do neo-realismo, cujas fundações foram estabelecidas pelo poeta e argumentista Cesare Zavattini, tinha uma preocupação humanista, onde se enfatizava a vida real e o espírito coletivo.
A renovação ocorre na temática, na linguagem e na relação com o público. Com poucos recursos, linguagem mais simples, temáticas contestadoras, atores não-profissionais e tomadas ao ar livre os filmes retratam o dia-a-dia de proletários, camponeses e pequena burguesia, imersos em um ambiente injusto e fatalista, sempre encontrando a frustração na eterna busca por melhores condições de vida, características ue se originam do realismo poético francês.
O cinema neorrealista italiano caracterizou-se pelo uso de elementos da realidade, aproximando-se do filme documentário. Ao contrário do cinema tradicional de ficção, o neo-realismo buscou representar a realidade social e econômica de uma época.
"Obsessão" (Ossessione - 1943), de Luchino Visconti, é considerada a obra inaugural do neo-realismo. A trilogia de Roberto Rosselini, Roma, "Cidade Aberta" (Roma, città aperta / Rome, Open City - 1945), "Paisà" (Paisà - 1946) e "Alemanha, Ano Zero" (Germania Anno Zero / Germany Year Zero - 1947), ao lado de "Ladrões de Bicicleta" (Ladri di Biciclette / The Bicycle Thief - 1948) e "Umberto D" (Umberto D - 1952), de Vittorio De Sica, constituem os grandes marcos do movimento. Destacam-se também "A Romana" (La Romana / Woman of Rome - 1954), de Luigi Zampa, "O Capote" (Il Cappotto / The Overcoat - 1952), de Alberto Lattuada, "O Ferroviário" (Il Ferroviere / Man of Iron / The Railroad Man - 1956), de Pietro Germi, e "A Terra Treme" (La Terra trema / The Earth Trembles - 1948), de Visconti.
Vittorio De Sica e o roteirista Cesare Zavattini realizam as maiores obras do neo-realismo: "Milagre em Milão" (Miracolo a Milano / Miracle in Milan - 1950) e "O Teto" (Il Tetto / The Roof / Le Toit - 1956). Recebe três Oscars de filme estrangeiro por "Ontem, Hoje e Amanhã" (Ieri, Oggi e Domani / Yesterday, Today and Tomorrow - 1963), "Casamento à Italiana" (Matrimonio all'Italiana / Marriage Italian-Style - 1964) e "O Jardim dos Finzi Contini" (Il Giardino dei Finzi-Contini / The Garden of the Finzi-Continis - 1971).
Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Neorrealismo_italiano
História do Cinema: http://www.webcine.com.br/historia2.htm
Neo-Realismo Cinematografico Italiano, O - EDUSP
Marcada pela ditadura de Benito Mussolini nas décadas anteriores, a Itália do pós-guerra era um país devastado, com uma economia em grandes dificuldades e que sentia a difícil transição da agricultura para a indústria. Esta realidade não se via no cinema italiano, com temas fantasiosos e irreais, além de produções vindas de Hollywood. Neste contexto, os neo-realistas reclamavam que o cinema devia “enxergar” e analisar a realidade, mostrando a vida italiana sem embelezamento. A filosofia do neo-realismo, cujas fundações foram estabelecidas pelo poeta e argumentista Cesare Zavattini, tinha uma preocupação humanista, onde se enfatizava a vida real e o espírito coletivo.
A renovação ocorre na temática, na linguagem e na relação com o público. Com poucos recursos, linguagem mais simples, temáticas contestadoras, atores não-profissionais e tomadas ao ar livre os filmes retratam o dia-a-dia de proletários, camponeses e pequena burguesia, imersos em um ambiente injusto e fatalista, sempre encontrando a frustração na eterna busca por melhores condições de vida, características ue se originam do realismo poético francês.
O cinema neorrealista italiano caracterizou-se pelo uso de elementos da realidade, aproximando-se do filme documentário. Ao contrário do cinema tradicional de ficção, o neo-realismo buscou representar a realidade social e econômica de uma época.
"Obsessão" (Ossessione - 1943), de Luchino Visconti, é considerada a obra inaugural do neo-realismo. A trilogia de Roberto Rosselini, Roma, "Cidade Aberta" (Roma, città aperta / Rome, Open City - 1945), "Paisà" (Paisà - 1946) e "Alemanha, Ano Zero" (Germania Anno Zero / Germany Year Zero - 1947), ao lado de "Ladrões de Bicicleta" (Ladri di Biciclette / The Bicycle Thief - 1948) e "Umberto D" (Umberto D - 1952), de Vittorio De Sica, constituem os grandes marcos do movimento. Destacam-se também "A Romana" (La Romana / Woman of Rome - 1954), de Luigi Zampa, "O Capote" (Il Cappotto / The Overcoat - 1952), de Alberto Lattuada, "O Ferroviário" (Il Ferroviere / Man of Iron / The Railroad Man - 1956), de Pietro Germi, e "A Terra Treme" (La Terra trema / The Earth Trembles - 1948), de Visconti.
Vittorio De Sica e o roteirista Cesare Zavattini realizam as maiores obras do neo-realismo: "Milagre em Milão" (Miracolo a Milano / Miracle in Milan - 1950) e "O Teto" (Il Tetto / The Roof / Le Toit - 1956). Recebe três Oscars de filme estrangeiro por "Ontem, Hoje e Amanhã" (Ieri, Oggi e Domani / Yesterday, Today and Tomorrow - 1963), "Casamento à Italiana" (Matrimonio all'Italiana / Marriage Italian-Style - 1964) e "O Jardim dos Finzi Contini" (Il Giardino dei Finzi-Contini / The Garden of the Finzi-Continis - 1971).
Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Neorrealismo_italiano
História do Cinema: http://www.webcine.com.br/historia2.htm
Neo-Realismo Cinematografico Italiano, O - EDUSP
O realismo poético francês
Mais uma influência sobre o gênero Noir que visa o retrato mais próximo da realidade frente as questões humanas e sociais é o realismo poético francês, um movimento surgido a partir da metade da década de 1930, logo após o advento tecnológico que deu origem ao cinema falado (1927), onde a produção The Jazz Singer - O Cantor de Jazz parece ter sido o marco inicial dessa nova fase do cinema norte-americano, espalhado em seguida para todo o mundo.
O cinema se converteu em um espetáculo visual e sonoro, destinado ao público em geral - inclusive a burguesia que até então desprezava o cinema por considerá-la uma arte destinada somente às massas, passando a enxergá-lo como meio de encontro social - e passou a dar mais importância aos elementos narrativos, o que levou, além do predomínio das produções glamourosas dos musicais, à arte do realismo e a dramaticidade do dia-a-dia.
Diante de tal mudança, os diretores franceses trocaram a vanguarda experimental por uma estética naturalista, iniciada por René Clair com Sous les toits de Paris (1930; Sob os telhados de Paris), a realidade melancólica em Million (1931; O milhão), À nous la liberté (1932; Viva a liberdade) e outras comédias. Jean Renoir desvendou com violência, ironia e compaixão as fraquezas humanas em Les Bas-fonds (1936; Bas-fonds), La Grande Illusion (1937; A grande ilusão) e La Règle du jeu (1939; A regra do jogo), estes últimos indicados crítica como dois dos maiores filmes do mundo.
Mas para a crítica, a obra O Atalante de Jean Vigo (1934), filme que descreve de forma poética as desventuras de um casal em viagem de lua-de-mel em uma pequena barca, com ambientes populares dos subúrbios das cidades francesas situadas às margens do rio navegado, é considerada o marco zero do realismo poético francês, representando a quebra da estética em relação ao cinema de vanguarda que imperava na França até então.
O naturalismo e o realismo que dominaram a tela francesa na década de 1930 apresentava personagens das classes populares em ambientes sórdidos, tratados com poesia e pessimismo. Os diretores que participaram com realce dessa fase foram Marcel Carné, Jacques Feyder, Julien Duvivier, Pierre Chenal e Marc Allegret. No âmbito populista, o maior nome foi Marcel Pagnol.
Os temas de fatalismo e injustiça que caracterizaram o realismo poético francês influenciaram o estilo filme Noir, gênero com suas histórias policiais que retratam personagens cínicos imersos em um ambiente de corrupção e devassidão. Filmes como Farrapo Humano (The Lost Weekend - 1945) e No silêncio da noite (In a Lonely Place - 1950), de maneira similar aos da primeira fase do realismo poético francês, apresentavam como protagonistas pessoas oprimidas presas a uma vida ordinária.
Com o fim da segunda guerra mundial, o cinema internacional entrou numa fase de transição que repudiava as formas tradicionais de produção e um inédito compromisso ético dos artistas. Assumindo atitude mais crítica em relação aos problemas humanos, o cinema rompeu com a tirania dos estúdios e passou a procurar nas ruas o encontro de pessoas e realidades.
O cinema se converteu em um espetáculo visual e sonoro, destinado ao público em geral - inclusive a burguesia que até então desprezava o cinema por considerá-la uma arte destinada somente às massas, passando a enxergá-lo como meio de encontro social - e passou a dar mais importância aos elementos narrativos, o que levou, além do predomínio das produções glamourosas dos musicais, à arte do realismo e a dramaticidade do dia-a-dia.
Diante de tal mudança, os diretores franceses trocaram a vanguarda experimental por uma estética naturalista, iniciada por René Clair com Sous les toits de Paris (1930; Sob os telhados de Paris), a realidade melancólica em Million (1931; O milhão), À nous la liberté (1932; Viva a liberdade) e outras comédias. Jean Renoir desvendou com violência, ironia e compaixão as fraquezas humanas em Les Bas-fonds (1936; Bas-fonds), La Grande Illusion (1937; A grande ilusão) e La Règle du jeu (1939; A regra do jogo), estes últimos indicados crítica como dois dos maiores filmes do mundo.
Mas para a crítica, a obra O Atalante de Jean Vigo (1934), filme que descreve de forma poética as desventuras de um casal em viagem de lua-de-mel em uma pequena barca, com ambientes populares dos subúrbios das cidades francesas situadas às margens do rio navegado, é considerada o marco zero do realismo poético francês, representando a quebra da estética em relação ao cinema de vanguarda que imperava na França até então.
O naturalismo e o realismo que dominaram a tela francesa na década de 1930 apresentava personagens das classes populares em ambientes sórdidos, tratados com poesia e pessimismo. Os diretores que participaram com realce dessa fase foram Marcel Carné, Jacques Feyder, Julien Duvivier, Pierre Chenal e Marc Allegret. No âmbito populista, o maior nome foi Marcel Pagnol.
Os temas de fatalismo e injustiça que caracterizaram o realismo poético francês influenciaram o estilo filme Noir, gênero com suas histórias policiais que retratam personagens cínicos imersos em um ambiente de corrupção e devassidão. Filmes como Farrapo Humano (The Lost Weekend - 1945) e No silêncio da noite (In a Lonely Place - 1950), de maneira similar aos da primeira fase do realismo poético francês, apresentavam como protagonistas pessoas oprimidas presas a uma vida ordinária.
Com o fim da segunda guerra mundial, o cinema internacional entrou numa fase de transição que repudiava as formas tradicionais de produção e um inédito compromisso ético dos artistas. Assumindo atitude mais crítica em relação aos problemas humanos, o cinema rompeu com a tirania dos estúdios e passou a procurar nas ruas o encontro de pessoas e realidades.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Os filmes de Gângsters
Os protagonistas dos filmes de gângster são personagens que prevalecem no mundo do crime onde o sucesso depende da coragem, da sagacidade e da força bruta. A narrativa desses filmes é a ascensão e queda do herói numa trama que se encerra com a sua morte, derivada da perseguição desesperada por dinheiro e poder.
Os protagonistas dos filmes de gângster são personagens que prevalecem no mundo do crime onde o sucesso depende da coragem, da sagacidade e da força bruta. A narrativa desses filmes é a ascensão e queda do herói numa trama que se encerra com a sua morte, derivada da perseguição desesperada por dinheiro e poder.
Alma do Lodo (Little Caesar, 1930)
Os filmes de gângster exerceram uma poderosa influência na produção do filme Noir. No período da Grande Depressão, o gângster era uma figura familiar, presente nas páginas de jornais que atraía a atenção devido ao dinheiro, poder, luxo e a visão da ascensão masculina num período dramático de crise econômica que inclusive afetava a formação da identidade nacional norte-americana.
Scarface, a Vergonha de uma Nação (Scarface, 1932)
O filme de gângster é parte da cinematografia dos EUA desde The Musketeers of Pig Alley, de D.W. Griffith (1912). O filme de Josef Von Sternberg, Paixão e Sangue (Underworld, 1927) que, com seus temas de alienação, paranóia, traição, vingança e morte, mais se aproxima da composição temática e estética que viria a caracterizar o film noir.
No início da década de 30, o filme de gângster atinge seu apogeu. Produções como Alma do Lodo (Little Caesar, 1930), O Inimigo Público (The Public Enemy, 1931) e Scarface, a Vergonha de uma Nação (Scarface, 1932) contribuíram para a noção de que o gângster era uma espécie de empreendedor moderno, diferente do mero criminoso, encarnando o lado sombrio do American Dream na fase mais aguda da Depressão econômica. O ambiente criminal e a iconografia a ele associada, elementos cruciais do filme noir, estabeleceram-se, então, firmemente na consciência das platéias norte-americanas.
Seu Último Refúgio (High Sierra, 1941)
O sucesso na era da Lei Seca norte-americana perdeu-se na década de 40, apesar de algumas produções de destaque como Último Refúgio (High Sierra, 1941), Fúria Sanguinária (White Heat, 1949) e O Amanhã que Não Virá (Kiss Tomorrow Goodbye, 1950).
Fúria Sanguinária (White Heat, 1949)
Os gângsteres apresentam-se em algumas circunstâncias em muitos thrillers noirs. Geralmente são proprietários de algum clube noturno como Ballin Mundson (George Macready) em Gilda (Gilda, 1946), Martinelli em Confissão (Dead Reckoning, 1947) e Whit Sterling em Fuga do Passado (Out of the Past, 1947). Na década de 50, o filme de gângster retorna uma vez mais em produções como O Império do Crime (The Big Combo, 1955) e A Bela do Bas Fond (Party Girl, 1958).
Fonte:
http://www.jorwiki.usp.br/gdnot08/index.php/Filme_de_gângster
Os protagonistas dos filmes de gângster são personagens que prevalecem no mundo do crime onde o sucesso depende da coragem, da sagacidade e da força bruta. A narrativa desses filmes é a ascensão e queda do herói numa trama que se encerra com a sua morte, derivada da perseguição desesperada por dinheiro e poder.
Alma do Lodo (Little Caesar, 1930)
Os filmes de gângster exerceram uma poderosa influência na produção do filme Noir. No período da Grande Depressão, o gângster era uma figura familiar, presente nas páginas de jornais que atraía a atenção devido ao dinheiro, poder, luxo e a visão da ascensão masculina num período dramático de crise econômica que inclusive afetava a formação da identidade nacional norte-americana.
Scarface, a Vergonha de uma Nação (Scarface, 1932)
O filme de gângster é parte da cinematografia dos EUA desde The Musketeers of Pig Alley, de D.W. Griffith (1912). O filme de Josef Von Sternberg, Paixão e Sangue (Underworld, 1927) que, com seus temas de alienação, paranóia, traição, vingança e morte, mais se aproxima da composição temática e estética que viria a caracterizar o film noir.
No início da década de 30, o filme de gângster atinge seu apogeu. Produções como Alma do Lodo (Little Caesar, 1930), O Inimigo Público (The Public Enemy, 1931) e Scarface, a Vergonha de uma Nação (Scarface, 1932) contribuíram para a noção de que o gângster era uma espécie de empreendedor moderno, diferente do mero criminoso, encarnando o lado sombrio do American Dream na fase mais aguda da Depressão econômica. O ambiente criminal e a iconografia a ele associada, elementos cruciais do filme noir, estabeleceram-se, então, firmemente na consciência das platéias norte-americanas.
Seu Último Refúgio (High Sierra, 1941)
O sucesso na era da Lei Seca norte-americana perdeu-se na década de 40, apesar de algumas produções de destaque como Último Refúgio (High Sierra, 1941), Fúria Sanguinária (White Heat, 1949) e O Amanhã que Não Virá (Kiss Tomorrow Goodbye, 1950).
Fúria Sanguinária (White Heat, 1949)
Os gângsteres apresentam-se em algumas circunstâncias em muitos thrillers noirs. Geralmente são proprietários de algum clube noturno como Ballin Mundson (George Macready) em Gilda (Gilda, 1946), Martinelli em Confissão (Dead Reckoning, 1947) e Whit Sterling em Fuga do Passado (Out of the Past, 1947). Na década de 50, o filme de gângster retorna uma vez mais em produções como O Império do Crime (The Big Combo, 1955) e A Bela do Bas Fond (Party Girl, 1958).
Fonte:
http://www.jorwiki.usp.br/gdnot08/index.php/Filme_de_gângster
A Lei Seca - criminalidade urbana e o poder dos Gângsters
Comentei em outros posts sobre o cenário social que deu origem ao gênero Noir, citando o Crash da Bolsa de 1929 e a Segunda Guerra Mundial, fatores que apresentam-se na temática do estilo demonstrando o clima de insegurança nas cidades, pelas condições precárias dos indivíduos que não encontram ocupação ou vivem de pequenos serviços e trambiques para sobreviver (The Third Man descreve claramente esse fato, logo no início do filme). A Segunda Guerra promove a imigração dos diretores de cinema que trazem a técnica e a temática pessimista e desiludida pelos ocorridos da Guerra. Ocorre ainda um outro fato histórico neste período que contribui com outra influência para o genero Noir e que pretendo descrever a seguir: A Lei Seca e o surgimento dos Gângsters.
Quem é que já não assistiu a um filme de O Poderoso Chefão (O Padrinho, traduzindo ao pé da letra), os clássicos protagonizados por nada menos que Marlon Brando e Al Pacino? Faço inclusive um adendo para a logo do filme, perfeita nas mãos que manipulam o marionete, como fazem os poderosos gângsters da época sobre seus "súditos" ou inimigos.
Pois é justamente sobre essas figuras lendárias mas reais, presentes em território norte-americano por volta dos anos 20 que falaremos, mostrando que o período da Lei Seca não só intensificou a situação de contrabando e atividades excusas na sociedade em crise como permitiu que grupos se fortalecessem e dominassem o poder sobre tais atividades, tornando-se ainda temas correntes que influenciaram personagens e histórias para o cinema, como no caso do Noir.
Em 1920 já haviam gangues em diversas partes dos EUA, em especial em Chicago e Nova York, controlando jogos, prostituição e extorsões.
Para acabar com os problemas sociais e salvar o país da pobreza e violência, os Estados Unidos decidiram banir as bebidas alcoólicas, julgando ser o álcool o único fator dos males que os assolavam. Em vigor de 1920 a 1933 (13 anos), A Lei Seca era uma proibição oficial contra a fabricação, varejo, transporte, importação ou exportação de bebidas alcoólicas. Segundo a 18a emenda Constitucional ou Ato de Volstead, era considerada "intoxicante" qualquer bebida que tivesse mais de 0,5% de álcool (as cervejas mais fracas têm cerca de 2%).
A justificativa a tal importância dedicada à bebida parece estar no protestantismo predominante nos Estados Unidos, que inclui a idéia do "Destino Manifesto": os americanos seriam o povo eleito por Deus para guiar o mundo. Para manter a nação no caminho certo, a sobriedade deveria ser estabelecida por decreto.
Muitos americanos porém, resolveram ignorar a Lei, buscando meios para conseguir as bebidas. Muitos iam para o Canadá em busca de bebidas, outros faziam no quintal o próprio uísque. Havia ainda quem se passasse por padre ou medico para obter litros de vinho sacramental ou de destilados medicinais (que tinham uso controlado).
Sob a Lei Seca, os apreciadores de bebidas encontravam-se nos speakeasies (speak easy), bares clandestinos, muitas vezes subterrâneos, nos quais era preciso falar baixo, para não chamar atenção.
Os gângsters vêem então um novo campo de atuação com ganhos garantidos, passando a dominar os milionários negócios com bebidas, corrompendo policiais, elegendo politicos e matando seus concorrentes.
Em Nova York, o principal mafioso era o siciliano Joseph Bonanno - apontado como a inspiração de O Poderoso Chefão de Mario Puzo, que se tornou um clássico do cinema. Dean O'Banion atuava no norte de Chicago com cerveja e uísque vindos do Canadá, enquanto Johnny Torrio contratava policiais para proteger seus interesses no sul da cidade.
Alphonse Capone foi o mais lendário gângster da história, auxiliando aos 14 anos Johnny Torrio no contrabando de bebidas em Chicago até 1925, quando Torrio se aposenta e Chicago fica nas mãos daquele que expandiu os negócios para cidades como Saint Louis e Detroit. Apesar de todos os assassinatos e outros crimes atribuídos a Capone, a sonegação de impostos é que o pôs na cadeia.
Bem, o resultado de tal lei que durou 13 anos nos EUA foi a desmoralização das autoridades e um estímulo à corrupção. Cidades como Chicago e Nova York viram a criminalidade explodir, enquanto a máfia enriquecia com o contrabando de álcool.
Havia ainda uma questão de saúde pública, pois como toda bebida era proibida, inclusive a cerveja que comparada a outras tem baixo teor alcóolico, o povo passou a consumir destilados de baixa qualidade, muitas vezes não só de gosto ruim como compostas de substâncias como alvejantes, solvente de tinta e formol. A baixa qualidade das bebidas contribuiu para que os casos de morte por cirrose nos Estados Unidos praticamente não diminuíssem durante a Lei Seca.
Mesmo com a proibição da bebida para evitar a violência, entre 1920 e 1935, as taxas de assassinato cresceram 30% nos Estados Unidos, de certa forma ignorada pela prosperidade econômica até que eclodiu o Crash da Bolsa em 29, gerando mais problemas no cenário urbano com boa parte da população desempregada.
A crise foi decisiva para que a Lei Seca acabasse. Havia rumores de que legalizar as bebidas criaria empregos, estimularia a economia e aumentaria a arrecadação de impostos. Em março de 1933, Franklin Roosevelt pediu ao Congresso que legalizasse a cerveja.
Buscando um resultado sobre a Lei Seca vemos que esta mudou os hábitos da população quanto ao tipo de bebida consumida sem parar com o consumo, além de fazer da máfia e os gângsters lendas que são revividas em diversos filmes e o conhecemos mesmo nos dias de hoje.
"Nós tendemos a romancear homens como Al Capone e seus contemporâneos, mas eles eram tão violentos quanto os traficantes de drogas de hoje", afirma a jornalista inglesa Lauren Carter, autora de Os Gângsteres mais Perversos da História.
Com o Crash da Bolsa e o término da Lei Seca, houve um aumento de conflitos entre as gangues que buscavam manter seus territórios de domínio. A nova era na máfia abandonou as rixas pessoais e a influência de poder local, para se infiltrar nos cargos públicos e em redes de crime muito mais amplas. Com mais estudo, essa nova geração estabelecia vínculo com juízes, policiais e procuradores de Justiça, garantindo cada vez mais seu poder de influência entre as elites econômicas dos Estados Unidos.
Veremos no próximo post como a máfia ou os gângsters influenciaram filmes do gênero Noir, citando alguns exemplos a respeito.
Fontes:
Revista Aventuras na História (Ed. Abril)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_seca
http://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/mafia-norte-americana.htm
Quem é que já não assistiu a um filme de O Poderoso Chefão (O Padrinho, traduzindo ao pé da letra), os clássicos protagonizados por nada menos que Marlon Brando e Al Pacino? Faço inclusive um adendo para a logo do filme, perfeita nas mãos que manipulam o marionete, como fazem os poderosos gângsters da época sobre seus "súditos" ou inimigos.
Pois é justamente sobre essas figuras lendárias mas reais, presentes em território norte-americano por volta dos anos 20 que falaremos, mostrando que o período da Lei Seca não só intensificou a situação de contrabando e atividades excusas na sociedade em crise como permitiu que grupos se fortalecessem e dominassem o poder sobre tais atividades, tornando-se ainda temas correntes que influenciaram personagens e histórias para o cinema, como no caso do Noir.
Em 1920 já haviam gangues em diversas partes dos EUA, em especial em Chicago e Nova York, controlando jogos, prostituição e extorsões.
Para acabar com os problemas sociais e salvar o país da pobreza e violência, os Estados Unidos decidiram banir as bebidas alcoólicas, julgando ser o álcool o único fator dos males que os assolavam. Em vigor de 1920 a 1933 (13 anos), A Lei Seca era uma proibição oficial contra a fabricação, varejo, transporte, importação ou exportação de bebidas alcoólicas. Segundo a 18a emenda Constitucional ou Ato de Volstead, era considerada "intoxicante" qualquer bebida que tivesse mais de 0,5% de álcool (as cervejas mais fracas têm cerca de 2%).
A justificativa a tal importância dedicada à bebida parece estar no protestantismo predominante nos Estados Unidos, que inclui a idéia do "Destino Manifesto": os americanos seriam o povo eleito por Deus para guiar o mundo. Para manter a nação no caminho certo, a sobriedade deveria ser estabelecida por decreto.
Muitos americanos porém, resolveram ignorar a Lei, buscando meios para conseguir as bebidas. Muitos iam para o Canadá em busca de bebidas, outros faziam no quintal o próprio uísque. Havia ainda quem se passasse por padre ou medico para obter litros de vinho sacramental ou de destilados medicinais (que tinham uso controlado).
Sob a Lei Seca, os apreciadores de bebidas encontravam-se nos speakeasies (speak easy), bares clandestinos, muitas vezes subterrâneos, nos quais era preciso falar baixo, para não chamar atenção.
Os gângsters vêem então um novo campo de atuação com ganhos garantidos, passando a dominar os milionários negócios com bebidas, corrompendo policiais, elegendo politicos e matando seus concorrentes.
Em Nova York, o principal mafioso era o siciliano Joseph Bonanno - apontado como a inspiração de O Poderoso Chefão de Mario Puzo, que se tornou um clássico do cinema. Dean O'Banion atuava no norte de Chicago com cerveja e uísque vindos do Canadá, enquanto Johnny Torrio contratava policiais para proteger seus interesses no sul da cidade.
Alphonse Capone foi o mais lendário gângster da história, auxiliando aos 14 anos Johnny Torrio no contrabando de bebidas em Chicago até 1925, quando Torrio se aposenta e Chicago fica nas mãos daquele que expandiu os negócios para cidades como Saint Louis e Detroit. Apesar de todos os assassinatos e outros crimes atribuídos a Capone, a sonegação de impostos é que o pôs na cadeia.
Bem, o resultado de tal lei que durou 13 anos nos EUA foi a desmoralização das autoridades e um estímulo à corrupção. Cidades como Chicago e Nova York viram a criminalidade explodir, enquanto a máfia enriquecia com o contrabando de álcool.
Havia ainda uma questão de saúde pública, pois como toda bebida era proibida, inclusive a cerveja que comparada a outras tem baixo teor alcóolico, o povo passou a consumir destilados de baixa qualidade, muitas vezes não só de gosto ruim como compostas de substâncias como alvejantes, solvente de tinta e formol. A baixa qualidade das bebidas contribuiu para que os casos de morte por cirrose nos Estados Unidos praticamente não diminuíssem durante a Lei Seca.
Mesmo com a proibição da bebida para evitar a violência, entre 1920 e 1935, as taxas de assassinato cresceram 30% nos Estados Unidos, de certa forma ignorada pela prosperidade econômica até que eclodiu o Crash da Bolsa em 29, gerando mais problemas no cenário urbano com boa parte da população desempregada.
A crise foi decisiva para que a Lei Seca acabasse. Havia rumores de que legalizar as bebidas criaria empregos, estimularia a economia e aumentaria a arrecadação de impostos. Em março de 1933, Franklin Roosevelt pediu ao Congresso que legalizasse a cerveja.
Buscando um resultado sobre a Lei Seca vemos que esta mudou os hábitos da população quanto ao tipo de bebida consumida sem parar com o consumo, além de fazer da máfia e os gângsters lendas que são revividas em diversos filmes e o conhecemos mesmo nos dias de hoje.
"Nós tendemos a romancear homens como Al Capone e seus contemporâneos, mas eles eram tão violentos quanto os traficantes de drogas de hoje", afirma a jornalista inglesa Lauren Carter, autora de Os Gângsteres mais Perversos da História.
Com o Crash da Bolsa e o término da Lei Seca, houve um aumento de conflitos entre as gangues que buscavam manter seus territórios de domínio. A nova era na máfia abandonou as rixas pessoais e a influência de poder local, para se infiltrar nos cargos públicos e em redes de crime muito mais amplas. Com mais estudo, essa nova geração estabelecia vínculo com juízes, policiais e procuradores de Justiça, garantindo cada vez mais seu poder de influência entre as elites econômicas dos Estados Unidos.
Veremos no próximo post como a máfia ou os gângsters influenciaram filmes do gênero Noir, citando alguns exemplos a respeito.
Fontes:
Revista Aventuras na História (Ed. Abril)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_seca
http://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/mafia-norte-americana.htm
terça-feira, 26 de abril de 2011
EUA: E assim surgiu a História em Quadrinhos... - Parte II
Continuando nosso comentário sobre a história dos quadrinhos, seguiremos pela década de 50, período que marca a chamada Caça aos HQs, onde o psiquiatra Frederic Wertham escreve A Sedução do Inocente, responsabilizando os quadrinhos de corrupção e delinquência juvenis, citando a Mulher Maravilha com ideias sadomasoquistas e a homossexualidade entre Batman & Robin.
Criou-se o Código de Ética para controlar as publicações dos HQs, fato que levou ao encerramento dos títulos de terror da EC Comics, restando apenas a revista Mad (por sinal, bem diferente da MAD que conhecemos nos dias de hoje).
Surgem os chamados quadrinhos filosóficos com Charlie Brown e Snoopy, de Charles Ml Schulz. Trata-se da era intelectual dos quadrinhos, onde houve maior valorização do texto sobre as imagens.
A década de 60 é conhecida como a Era de Prata das HQs, e houve uma renovação do mundo dos heróis, surgindo o novo Flash da DC Comics, Superman, Wonder Woman (Mulher Maravilha), Batman, entre outros.
Em 1961, a Marvel Comics lança novos heróis à altura da Liga da Justiça da América, surgindo o Fantastic Four (Quarteto Fantástico), por Jack Kirby e Stan Lee, um grupo mais familiar que adquire super-poderes após um acidente cósmico. Representam ainda os 4 elementos da natureza e referen-se ao momento histórico da Guerra Fria e a paranóia anticomunista.
1961 marca ainda o Auge da Guerra Fria com a chegada do soviético Yuri Gagarin ao espaço, gerando a corrida espacial.
O Quarteto Fantástico passa a representar a nova era espacial em que estão dispostos a arriscar tudo para estar adiante da ameaça vermelha.
A década de 70 marca a chegada dos Quadrinhos underground tendo como principais desenhistas Robert Crumb, Gilbert Shelton (Freak Brothers), entre outros.
Em 74, os franceses Moebius, Philipe Druillet, Jean Pierre Dionnet e Bernard Farkas, criam a Métal Hurlant, que em 77 chega aos EUA como Heavy Metal, com temas relacionados a ficção ciêntífica, psicodelismo, rock’n’roll, sexo e corpos nus.
Na década de 80 surgem as HQs adultas chamadas de Graphic novels, e o Cavaleiro das Trevas Batman, sombrio, amargurado e violento é o grande protagonista criado por Frank Miller.
É um tempo marcado pela violência, insanidade e dúvidas existenciais presente nos quadrinhos, trazendo os personagens Elektra Assassina (Frank Miller), o denso e pessimista Watchmen (David Gibbons e Alan Moore), e o senhos dos sonhos Sandman (Neil Gaiman), entre outros.
Mas porque nos anos 80 os quadrinhos, comunicação de massa que parece refletir a situação social em todo os períodos, ganhou essa imagem sombria e pessimista, com questionamentos existenciais a respeito da vida?
Dentre outras pesquisas feitas sobre o período, creio que o resumo encontrado no blog de Mabu Mabe nos mostre uma visão bem clara a respeito:
“O acirramento entre capitalismo e comunismo recrudesce, a queda do muro de Berlim reforça este significado. Porém, não se trata de um entendimento, mas da derrocada do comunismo que não conseguiu construir a utopia de uma sociedade igualitária, sem castas privilegiadas nem indivíduos excluídos. O culto ao corpo alcança proporções desconhecidas até então, as academias de ginástica lotam e a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida aterroriza homens, mulheres e homossexuais de todas as idades no mundo inteiro. Os homens exibem altos topetes à custa de muito gel, e as mulheres carregam no blush para dar às bochechas o visual de vivacidade requerido pela geração saúde...O fim da idade industrial é também o início da idade da informação que populariza os computadores pessoais, walkmans e videocassetes.” (http://www.mabe.com.br/cronologia/decada-de-80).
Há que mencionar ainda, sobre os EUA, que houve um período de instabilidade econômica, devido a ineficácia em responder a novos concorrentes que surgiam no mercado internacional, fator econômico que parece contribuir para o retorno das incertezas e inseguranças, tal como nos anos do Crash da Bolsa.
A década de 90 chega com as tecnologias que permitem a colorização dos HQs por computador e surge ainda uma grande influência dos Mangás sobre os traços nas produções dos quadrinhos.
Após o ataque terrorista do 11 de setembro de 2011, ocorre um resgate dos quadrinhos da década de 80, ou ainda, em um curto período e com os novos acontecimentos que trazem à tona mais um período de terror e insegurança, os quadrinhos retomam o clima sombrio e violento.
Muitos desses personagens, tanto nos EUA como em outros países receberam adaptações no cinema, como Spider Man, Superman, Batman, Daredevil, Fantastic Four, entre outros. Muitas adaptações e porque não, apropriações das histórias em quadrinhos para o cinema demonstra as inlfluências que as artes tem entre si, transitando entre os gêneros e estilos, além de retratar a cada momento as vivências e ansiedades do ser humano, propagando cada vez mais esse tão apreciado meio de comunicação de massa que não só entretém mas nos levam ainda a refletir sobre o mundo em que vivemos.
As adaptações dos quadrinhos para o cinema - Batman (The Dark Night) e Spider Man.
Referências:
MCCLOUD, Scott - Desvendando os quadrinhos - 1995;
SALEM, Rodrigo, Resgate - A evolução dos quadrinhos sob a análise do historiador - 1995.
ADORNO, Theodor W. - Comunicação e Indústria Cultural - 1978
Criou-se o Código de Ética para controlar as publicações dos HQs, fato que levou ao encerramento dos títulos de terror da EC Comics, restando apenas a revista Mad (por sinal, bem diferente da MAD que conhecemos nos dias de hoje).
Surgem os chamados quadrinhos filosóficos com Charlie Brown e Snoopy, de Charles Ml Schulz. Trata-se da era intelectual dos quadrinhos, onde houve maior valorização do texto sobre as imagens.
A década de 60 é conhecida como a Era de Prata das HQs, e houve uma renovação do mundo dos heróis, surgindo o novo Flash da DC Comics, Superman, Wonder Woman (Mulher Maravilha), Batman, entre outros.
Em 1961, a Marvel Comics lança novos heróis à altura da Liga da Justiça da América, surgindo o Fantastic Four (Quarteto Fantástico), por Jack Kirby e Stan Lee, um grupo mais familiar que adquire super-poderes após um acidente cósmico. Representam ainda os 4 elementos da natureza e referen-se ao momento histórico da Guerra Fria e a paranóia anticomunista.
1961 marca ainda o Auge da Guerra Fria com a chegada do soviético Yuri Gagarin ao espaço, gerando a corrida espacial.
O Quarteto Fantástico passa a representar a nova era espacial em que estão dispostos a arriscar tudo para estar adiante da ameaça vermelha.
A década de 70 marca a chegada dos Quadrinhos underground tendo como principais desenhistas Robert Crumb, Gilbert Shelton (Freak Brothers), entre outros.
Em 74, os franceses Moebius, Philipe Druillet, Jean Pierre Dionnet e Bernard Farkas, criam a Métal Hurlant, que em 77 chega aos EUA como Heavy Metal, com temas relacionados a ficção ciêntífica, psicodelismo, rock’n’roll, sexo e corpos nus.
Na década de 80 surgem as HQs adultas chamadas de Graphic novels, e o Cavaleiro das Trevas Batman, sombrio, amargurado e violento é o grande protagonista criado por Frank Miller.
É um tempo marcado pela violência, insanidade e dúvidas existenciais presente nos quadrinhos, trazendo os personagens Elektra Assassina (Frank Miller), o denso e pessimista Watchmen (David Gibbons e Alan Moore), e o senhos dos sonhos Sandman (Neil Gaiman), entre outros.
Mas porque nos anos 80 os quadrinhos, comunicação de massa que parece refletir a situação social em todo os períodos, ganhou essa imagem sombria e pessimista, com questionamentos existenciais a respeito da vida?
Dentre outras pesquisas feitas sobre o período, creio que o resumo encontrado no blog de Mabu Mabe nos mostre uma visão bem clara a respeito:
“O acirramento entre capitalismo e comunismo recrudesce, a queda do muro de Berlim reforça este significado. Porém, não se trata de um entendimento, mas da derrocada do comunismo que não conseguiu construir a utopia de uma sociedade igualitária, sem castas privilegiadas nem indivíduos excluídos. O culto ao corpo alcança proporções desconhecidas até então, as academias de ginástica lotam e a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida aterroriza homens, mulheres e homossexuais de todas as idades no mundo inteiro. Os homens exibem altos topetes à custa de muito gel, e as mulheres carregam no blush para dar às bochechas o visual de vivacidade requerido pela geração saúde...O fim da idade industrial é também o início da idade da informação que populariza os computadores pessoais, walkmans e videocassetes.” (http://www.mabe.com.br/cronologia/decada-de-80).
Há que mencionar ainda, sobre os EUA, que houve um período de instabilidade econômica, devido a ineficácia em responder a novos concorrentes que surgiam no mercado internacional, fator econômico que parece contribuir para o retorno das incertezas e inseguranças, tal como nos anos do Crash da Bolsa.
A década de 90 chega com as tecnologias que permitem a colorização dos HQs por computador e surge ainda uma grande influência dos Mangás sobre os traços nas produções dos quadrinhos.
Após o ataque terrorista do 11 de setembro de 2011, ocorre um resgate dos quadrinhos da década de 80, ou ainda, em um curto período e com os novos acontecimentos que trazem à tona mais um período de terror e insegurança, os quadrinhos retomam o clima sombrio e violento.
Muitos desses personagens, tanto nos EUA como em outros países receberam adaptações no cinema, como Spider Man, Superman, Batman, Daredevil, Fantastic Four, entre outros. Muitas adaptações e porque não, apropriações das histórias em quadrinhos para o cinema demonstra as inlfluências que as artes tem entre si, transitando entre os gêneros e estilos, além de retratar a cada momento as vivências e ansiedades do ser humano, propagando cada vez mais esse tão apreciado meio de comunicação de massa que não só entretém mas nos levam ainda a refletir sobre o mundo em que vivemos.
As adaptações dos quadrinhos para o cinema - Batman (The Dark Night) e Spider Man.
Referências:
MCCLOUD, Scott - Desvendando os quadrinhos - 1995;
SALEM, Rodrigo, Resgate - A evolução dos quadrinhos sob a análise do historiador - 1995.
ADORNO, Theodor W. - Comunicação e Indústria Cultural - 1978
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